Filósofos do século XXI “traduzem” conceitos e teorias para exemplos do dia a dia

14 de agosto de 2020

As definições de Filosofia foram atualizadas! Mais do que apenas entender o “sentido da vida”, as teorias propostas por filósofos estão mais conectadas com as nossas vidas cotidianas do que podemos imaginar. Entenda!


Ainda que a Grécia Antiga, berço da filosofia ocidental, pareça distante da realidade do século XXI, as reflexões propostas a partir desta época dialogam com saberes presentes no mundo moderno: a ética, a estética, a política, a medicina, a ciência, a linguagem e, é claro, a existência individual e coletiva.

A combinação das palavras philos e sophia — que no grego significam “amor” e “sabedoria”, respectivamente —  ajudam a entender o conceito por trás do nome Filosofia:  respeito pela sabedoria. Sendo assim, os filósofos ocupam um papel de comprometimento com a busca pelo conhecimento prático.

Mais do que apenas entender o “sentido da vida”, as teorias propostas por eles, tanto no Ocidente quanto no Oriente estão mais conectadas com as nossas vidas cotidianas do que pensamos. E segundo a opinião do pesquisador e filósofo, Pedro Bravo, a visão da filosofia como algo “inútil”, acontece muito pela maneira como ela nos é apresentada.

“Discussões filosóficas tiveram um papel enorme na criação do computador, nos movimentos sociais, na avaliação ética das novas tecnologias, na colaboração com pesquisadores de outras áreas para se obter resultados melhores na ciência, entre outros exemplos”, defende o educador.

Leia mais: Felicidade é o segredo para formar uma geração mais inovadora e bem-sucedida

 

Um convite para a sabedoria

Antes de se dedicar apenas às pesquisas, Pedro participou de um projeto de extensão durante a graduação, que tinha como objetivo trabalhar filosofia com crianças. Depois dessa experiência, percebeu a importância de democratizar cada vez mais esse conhecimento.

Depois de ter lecionado a disciplina para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), surgiu a ideia de criar um projeto que pudesse conciliar a divulgação de pesquisas com a educação, e assim nasceu  o “Filosofia a Sério”.

“Quero combater essa imagem distante, construindo uma ponte para que todos possam se aproximar. Para isso, publico dois tipos de conteúdo: um em que apresento algum debate recente na Filosofia que tenha a ver com algum tema atual, e outro em que divulgo colegas escrevendo suas próprias pesquisas de forma acessível”, explica.

O Instagram e o Facebook do projeto já trouxeram debates como os futuros da série Dark, uma produção da Netflix que se popularizou pela complexidade das questões que aborda, e também o conceito de consenso científico, relacionado ao contexto atual de pesquisas impulsionadas pela pandemia de coronavírus.

Quando perguntado sobre o papel da escola para tornar o tema mais acessível, o pesquisador aponta três caminhos: fazer uso de exemplos recentes, evitar jargões e termos técnicos, além de utilizar histórias e analogias. “Alguns filósofos pensam que isso simplifica, mas na verdade é esse o objetivo: o início de uma conversa, um convite”, acredita.

 

‘Roubando a brisa” de Nietzsche 

Marcelo Marques, 19 anos, estuda para ser professor de História, mas ficou conhecido pela sua trajetória na internet como Audino Vilão. Seu perfil viralizou quando definiu o filósofo Nietzsche como“roba brisa”. Depois veio Platão, Spinoza, Sócrates, todos para debater a vida na quebrada, em pleno século XXI.

Foto de Marcelo Marques, 19 anos, criador do perfil Audino Vilão

Marcelo Marques, 19 anos, criador do perfil Audino Vilão

 

O canal conta, hoje, com quase 90 mil seguidores e ficou famoso por explicar a Filosofia em uma linguagem simples e conectada com exemplos da atualidade. Nascido em Paulínia, interior de São Paulo, Marcelo cresceu na periferia e sempre estudou em escolas públicas.

“Meu maior aprendizado na escola foi minha formação como ser humano, saber quem eu sou e como vivo com os outros. Para mim, a escola é o espaço onde você aprende a se comportar socialmente”.

O jovem conta que caprichava em História, sua matéria favorita. Aos 16 anos, teve o primeiro contato com Filosofia e começou a identificar semelhanças entre as teorias e a prática. Pediu para que os professores trouxessem mais esse tipo de assunto, mas não encontrou o tipo de conteúdo que esperava.

Foi então que, em junho de 2020, Marcelo decidiu usar seu canal no YouTube para traduzir as teorias de Karl Marx, contextualizando as gírias paulistas usadas em sua comunidade. Antes, o canal era voltado para analisar a sociedade através de conceitos apresentados na ficção, em videogames, animes, quadrinhos e outros produtos culturais.

 

Filosofia ao alcance de todos 

O próprio nome do canal veio dessa busca por traduzir análises de uma forma didática. “Audino” é o apelido de Marcelo nos meios virtuais e também o nome de um personagem da franquia Pokémon. O complemento “vilão” surgiu para caracterizar a forma pejorativa como a cultura periférica é frequentemente compreendida pela sociedade, segundo Marcelo.

“Eu pensei: vou ser o vilão do conhecimento e dar uma de Robin Hood, distribuir para todo mundo. Minha ideia era pegar um assunto elitista, como as teorias dos filósofos, e contribuir de uma forma que todo mundo pudesse entender”, explica o jovem. “Meu processo de produção é simples, eu estudo os livros dos autores, escolho um dos tópicos e me aprofundo nele, me preocupando em encaixar um exemplo do dia a dia, para que a rapaziada possa se identificar”, complementa.

Imagem do filósofo René Descartes com a frase “Pego a visão, logo corro pelo certo”

A famosa frase “Penso, logo existo”, que faz parte da tese do filósofo francês René Descartes, foi transformada por Audino Vilão em um bordão que conversa com o século XXI.

 

Após o sucesso do vídeo, que alcançou cerca de 245 mil visualizações, o jovem foi procurado por sociólogos e filósofos conhecidos e também por educadores do Ensino Básico, que viram em seus vídeos uma inspiração para dar aulas mais conectadas com a realidade de seus estudantes.

“Até mesmo os meus parceiros da quebrada vieram falar que meus vídeos fizeram eles entenderem pela primeira vez. Eu fico muito feliz quando isso acontece. A importância de traduzir esses conceitos para a nossa linguagem é que a Filosofia é prática, ela não fica só na teoria”, acredita.

No futuro, Marcelo pretende ser professor e defende que a busca pelo conhecimento não é exclusividade dos filósofos, dos que tem Q.I acima da média ou dos que tem meios para acessá-lo; Para ele, assim como a Filosofia, a sabedoria é prática e tem diversas formas de ser passada adiante.

Conheça algumas discussões atuais que partem de reflexões filosóficas:

Fake News e a pós-verdade

O debate sobre o que é a verdade é extenso dentro da Filosofia. Nos tempos modernos, ele foi trazido à tona sob um novo termo: a pós-verdade. A definição remonta dos anos 90, mas foi em 2016 que atingiu a esfera pública de discussão, quando foi escolhida a palavra do ano pelo Oxford Dictionaries. Trazendo de volta a teoria de Nietzsche sobre nenhuma verdade ser absoluta, o conceito transformou-se em um mecanismo de desvalorização dos fatos em benefício dos interesses pessoais ou de um grupo. Não demorou até que isso ganhasse uma nova dimensão, as chamadas “fake news”. Existe um amplo debate sobre a verdade, a ética e a política que conflitam com essa visão de que a pós-verdade seja o retrato da sociedade atual.

Pandemia e a Bioética

A Bioética pretende estudar a “ética da vida” em um sentido muito amplo e pode ir desde as nossas relações com o meio-ambiente e com as outras espécies de animais, até as análises de problemas éticos associados às áreas da ciência e saúde. Em uma crise de saúde pública, como a pandemia de coronavírus são os princípios propostos pela Bioética que guiam a comunidade científica e os profissionais de saúde na tomada de decisões para melhor atender a população em risco. Saiba mais!

Interações digitais e Filosofia da Tecnologia

Segundo a Filosofia, a tecnologia é considerada todo o dispositivo que facilita a vida cotidiana. Mas na sociedade contemporânea, o consumo da tecnologia e os comportamentos analisados a partir dessas interações geram reflexões éticas, políticas e existenciais. Sem determinadas condições não se acessa as tecnologias, intensificando as desigualdades. Por outro lado, o uso intenso de quem tem acesso a elas, também traz desafios para as relações e cria outros tipos de interações sociais.  Saiba mais!

Confira mais dicas de conteúdo sobre Filosofia nos links: Rede de Mulheres Filósofas, Filosofia Africana Podcast Filosofia Pop, Podcast Ouse Saber, Canal Filosofares.



Deixe uma resposta aqui