Qual é a importância de trabalhar a língua de sinais em sala de aula?

25 de setembro de 2020

A inclusão da comunidade surda na sociedade depende da aproximação dos ouvintes com a linguagem utilizada pelas pessoas com deficiência auditiva para se expressar e entender o mundo


A língua vai muito além de um sistema de regras gramaticais e sintáticas. É através dela que os seres humanos fazem a mediação de suas relações e se conectam com as formas de expressão do outro. Isso vale não somente para línguas como o português, o espanhol, ou o inglês, mas também para as línguas de sinais.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de 466 milhões de pessoas com deficiência auditiva ao redor do mundo. Só no Brasil, a comunidade surda representa 5% da população, totalizando 10,7 milhões de pessoas

Considerando que cerca de 80% delas têm dificuldade para entender línguas baseadas no sistema oral-auditivo, é através da linguagem de sinais que as dinâmicas de interação acontecem com essa parcela significativa da população. Inclusive, a língua de sinais não é universal. Assim como há uma diversidade linguística e de idiomas falados, existem entre 138 e 300 tipos de línguas de sinais usadas em diferentes países.

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é o sistema adotado no Brasil. Em 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência passou a determinar, como lei, a oferta de educação bilíngue em escolas e outros serviços públicos. O objetivo é garantir a inclusão e a igualdade de direitos para as pessoas com deficiência auditiva na sociedade brasileira.

Na prática, nem sempre os profissionais da educação têm recursos ou formação para fazer essa integração de forma adequada. Isso reflete as condições de vida da comunidade surda em relação ao acesso à cidade, à educação, às oportunidades de inserção no mercado de trabalho e, consequentemente, a saúde mental.

Infográfico traz três ilustrações usando predominantemente as cores roxa, azul e amarelo. Há um estudante com capelo e roupa de formatura, uma mulher em uma mesa de escritório e um rapaz em posição de meditação. No corpo traz dados sobre a comunidade surda no Brasil. Na educação, 46% das pessoas com deficiência auditiva frequentam até o Ensino Fundamental, 15% até o Ensino Médio e apenas 7% concluem o Ensino Superior. No mercado de trabalho, 37% estão fora do mercado formal de trabalho; na saúde mental, as pessoas da comunidade surda têm três vezes mais chance de sofrer discriminação em serviços públicos. Os dados foram coletados em parceria entre o Instituto Locomotiva e a Semana de Acessibilidade Surda, 2019.

Fonte: Estudo feito em parceria pelo Instituto Locomotiva e a Semana da Acessibilidade Surda, 2019

 

Práticas pedagógicas inspiradoras

Embora as práticas que levem em consideração o desenvolvimento e a inclusão dos estudantes com deficiência auditiva ainda não sejam uma regra geral para todas as escolas brasileiras, existem iniciativas norteadoras nesse sentido.

É o caso do Sala 8, projeto idealizado pela professora de educação especial Doani Bertan, uma das finalistas do prêmio Global Teacher Prize 2020. A partir de um canal no YouTube, a turma de Fundamental I da Escola Municipal Júlio de Mesquita Filho, de Campinas (SP), tem contato com o ensino de Libras de uma forma lúdica e divertida.

“Uma criança ouvinte, quando realiza seus estudos, pesquisas e leituras em casa, o faz em sua língua materna. No caso dos estudantes surdos, estas mesmas práticas têm como agente dificultador o fato de serem realizadas em uma língua diferente da que dominam”, diz Doani sobre uma das inquietações que a levou a criar o Sala 8.

 

As línguas de sinais são formuladas a partir de um sistema visual e espacial, diferente do oral-auditivo. Isso faz com que a gramática e o léxico das Libras, por exemplo, modifique a forma de expressão, que é baseada em cinco parâmetros: configuração de mãos, pontos de articulação, movimento, expressões não manuais e orientação.

Para saber mais, confira a explicação do professor Fábio de Sá, do Centro de Educação para Surdos.

Com uma turma formada por estudantes surdos e não surdos, a educadora se viu em constante tentativa de sanar as dúvidas e personalizar os conteúdos. Antes mesmo de criar o canal, Doani já tinha o hábito de fazer videochamadas para atender os estudantes individualmente. Mas, por uma limitação de tempo e acessibilidade, percebeu que poderia sistematizar esse saber para ser trabalhado com mais profundidade.

O primeiro passo foi consultar os estudantes, entender suas necessidades, o que e como eles gostariam de ver. A partir dos apontamentos deles, passou a fazer um estudo imersivo das Libras e também das técnicas necessárias para gravar e editar vídeos. Já nos primeiros conteúdos, os resultados foram surpreendentes.

“Com a imersão dos alunos ouvintes na comunidade surda, a Libras passou a ser entendida como uma ponte para a comunicação, novas amizades, aprendizados, além de permitir aos estudantes entenderem o real sentido da palavra empatia. Aos alunos surdos, o conhecimento oferecido, respeitando a sua especificidade linguística, retira a condição de pessoa com deficiência e trabalha a diferença como parte da vida em sociedade”, relata.

 

Os desafios para os educadores

Na experiência de Doani, o maior desafio para contemplar as necessidades dos estudantes foi a escassez na variedade de materiais disponíveis para ensinar Libras. Na maior parte das vezes impressos, dificultam o aprendizado dos gestos manuais e expressões, e não contemplam os regionalismos linguísticos.

Se a alternativa para contornar esse cenário é inovar nas práticas pedagógicas, há também desafios para os educadores no que diz respeito ao acesso aos recursos e competências técnicas, principalmente no uso de tecnologias como forma de potencializar a aprendizagem.

“O potencial tecnológico requer um grande repensar pedagógico para proporcionar ao aluno o papel de agente de sua aprendizagem. O planejamento foi intenso e, dada a minha inexperiência, realizei pesquisas sobre o tempo recomendado para videoaulas, edição, legendagem, roteirização”, conta Doani.

A educadora ressalta, no entanto, que não esteve sozinha nesse processo. Contou com a ajuda do marido e, sobretudo, com a participação dos estudantes. Foram as contribuições deles que direcionaram os conteúdos, passando por gêneros textuais, Matemática, Geografia e demais assuntos que os interessavam.

 

Para além da escola

O impacto do Sala 8 envolveu a comunidade além da escola. Devolutivas de familiares e até mesmo de outros educadores evidenciaram a importância de criar espaços de inclusão.

Segundo Doani, os familiares surdos ficaram felizes por verem suas crianças tendo um aprendizado diferente do que tiveram na escola há anos atrás, sendo contempladas pelo currículo e assumindo o protagonismo. Já os pais ouvintes, relataram que se sentiram gratos pela oportunidade de aprender as libras e se aproximarem dos filhos.

Os retornos positivos também estão vindo de educadores de diferentes regiões do Brasil, que estão parabenizando o trabalho, sugerindo temas para os próximos vídeos ou pedindo instruções de como produzir videoaulas.

“O uso dessa tecnologia nos permitiu a aproximação que não era geograficamente possível. A escola tem urgência na sua reformulação, na adequação às exigências do tempo presente e na oferta de ferramentas para que todos os públicos sejam contemplados, cada um em sua especificidade”, conclui a educadora.

Desde o início da pandemia de coronavírus, em março de 2020, um projeto da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Blumenau, definiu como principal propósito conscientizar a população infantil sobre este momento sem precedentes na história, divulgando informações com base científica através das próprias crianças.

Coordenada pelos educadores Renata Orlandi e Aldo Sena, a produção dos vídeos foi feita em parceria com outros docentes da universidade. O primeiro foi protagonizado por Augusto Selhorst, um menino de nove anos de idade com deficiência visual, que alertou sobre a importância do isolamento social e da higienização das mãos. O objetivo era alcançar mais pessoas por meio da tradução e interpretação em Libras e audiodescrição.

Já o segundo vídeo, foi desenvolvido com a colaboração de crianças do 4º ano de uma escola pública em Florianópolis, que apresentaram seus próprios projetos de divulgação científica para combater a desinformação sobre o Covid-19. Ele conta com a participação de dois jovens intérpretes de Libras que fazem parte da comunidade surda.

“Acessibilidade é um direito, assim como o direito à educação, à saúde e a condições igualitárias de prevenção. Por isso se faz necessário pensarmos em ações dedicadas à democratização da ciência a partir de um desenho universal”, conclui Renata Orlandi.



2 comentários sobre “Qual é a importância de trabalhar a língua de sinais em sala de aula?”

  1. Eliana da Silva disse:

    Gratidão

    1. Fundação Telefônica Vivo disse:

      Olá, Eliana

      Agradecemos seu comentário, é muito importante para nós. Continue nos acompanhando e boa sorte quando começar.

      Abraços!

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