As percepções da juventude brasileira diante da pandemia

09 de julho de 2020

Ansiosos com os desafios trazidos pela crise de saúde pública, os jovens vivenciam a instabilidade, mas não deixam de acreditar nas oportunidades de mudança para o futuro. É o que indica a pesquisa Juventudes e a Pandemia. Saiba mais!


Sonhos adiados, futuro incerto. Os desafios impostos pela pandemia de coronavírus impactaram, de maneiras distintas, as vidas das juventudes em todo o mundo. No Brasil, onde ¼ da população — cerca de 50 milhões de pessoas — tem entre 15 e 29 anos, as potências são múltiplas, mas as desigualdades trazem instabilidade para os lares e mentes dessa parcela importante da sociedade.

Com objetivo de chamar atenção das políticas públicas e compreender o cenário atual, a pesquisa Juventudes e a Pandemia foi lançada pelo CONJUVE (Conselho Nacional da Juventude), em parceria com a Unesco, Fundação Roberto Marinho, Rede Conhecimento Social, Mapa Educação, Porvir, Em Movimento e Visão Mundial.

O levantamento de dados foi feito entre 15 e 31 de maio de 2020 e alcançou 33.688 jovens, em todo o país. Por meio de um questionário construído coletivamente com a ajuda de um grupo focal de jovens, a pesquisa traz percepções em relação a quatro temas — economia, saúde e bem-estar, educação e perspectivas para o futuro.

“O futuro desta, que é a maior geração de jovens da história do país, está seriamente em risco, o que pode impactar drasticamente os rumos da sociedade nas próximas décadas. A pesquisa foi criada para contribuir concretamente com este desafio”, afirma Marcus Barão, vice-presidente do Conselho Nacional da Juventude e coordenador da pesquisa.

 

Economia, Emprego e Renda 

Um dos maiores motivos de preocupação é, sem dúvida, a relação entre economia, emprego e renda. Com as medidas de segurança pública impostas pela pandemia, pequenos e grandes comércios fecharam as portas, bem como shoppings e fábricas. Milhares de brasileiros perderam seus empregos ou tiveram o salário reduzido em decorrência desse processo.

A pesquisa mostra que 5 em cada 10 jovens mencionaram redução de renda em suas famílias. Entre os jovens negros, essa proporção fica ainda maior: 45%, em comparação a 44% dos pardos e 37% dos brancos. Deste total, cerca de 33% dos entrevistados buscaram formas de complementar a renda.

Outro aspecto levantado pela pesquisa é a expectativa dos jovens para a economia no período pós-pandemia: 44% deles acreditam que o desenvolvimento econômico brasileiro vai piorar muito. Essa percepção evidencia um ponto de alerta que já existia antes da crise, considerando que 50% dos jovens, na faixa etária entre os 19 e 24 anos, estavam desempregados.

 

Atenção para a saúde mental 

Apesar da insegurança diante da situação econômica, os maiores temores estão relacionados a questões de saúde. 75% deles dizem ter medo de perder alguém da família, 48% temem ser infectados e 45% estão preocupados com a possibilidade de infectar outras pessoas.

Toda essa carga emocional trazida pela mudança forçada de hábitos, sobretudo os de higiene, e a impossibilidade de sair de casa tornaram a saúde mental um dos maiores pontos de atenção para as juventudes. Para 7 em cada 10 entrevistados, o estado emocional piorou muito. Os sentimentos que se destacam durante o isolamento social são: ansiedade, tédio e impaciência.

“Me enquadro no grupo que estuda, trabalha, tem sonhos para o futuro, mas viu tudo ser atropelado pela pandemia e suas consequências”, relata Caio Henrique Silva (18), um dos participantes do grupo focal da pesquisa. “Estou no meu primeiro emprego, trabalhando em casa e com o psicológico abalado pela pandemia. Todas as esferas são afetadas por esse desequilíbrio na saúde mental”.

 

Acesso à educação em risco 

Além de mover mudanças de hábitos, a pandemia também ampliou as distâncias no acesso à educação. “Estamos falando de 258 milhões de crianças e adolescentes no mundo que estão excluídos dos sistemas educacionais. Aqui no Brasil, sabemos que o acesso à tecnologia e internet são desafios enormes para a maior parte da população”, conclui Marlova Noleto, representante da UNESCO no Brasil.

Segundo os entrevistados pela pesquisa, há ainda uma dificuldade de equilibrar as emoções, organizar a rotina e encontrar um ambiente adequado para os estudos em casa. 6 a cada 10 jovens acham que as escolas e faculdades devem priorizar atividades para lidar com as emoções e  5 a cada 10 pedem estratégias para gestão de tempo e organização.

Considerando os medos e as inseguranças que rondam as mais diversas esferas de suas vidas, manter o vínculo com os conteúdos e com a escola se torna um obstáculo cada vez maior para as juventudes. De acordo com os dados da pesquisa, 28% dos entrevistados já pensaram em não retornar à escola após a pandemia. Essa proporção aumenta conforme a idade, mostrando que quanto mais velhos os estudantes são, mais pensam em desistir.

Infográfico sobre acolhimento e interação social da Pesquisa Juventudes e a Pandemia, 2020.

 

Oportunidades de mudança 

Quando perguntados sobre a expectativa para o futuro pós-pandemia, os jovens conseguem trazer uma perspectiva realista, sem perder a esperança. Embora estejam incertos sobre a economia, a política e a educação de uma maneira geral, acreditam que a ciência, o comportamento e a interação humana serão mais valorizados.

Para 72% dos entrevistados este é o momento propício para retomar as discussões sobre o meio ambiente e 50% concordam que a pandemia pode trazer mais prestígio, reconhecimento e investimentos para a pesquisa e saúde pública.

No que diz respeito ao mercado de trabalho, 5 em cada 10 jovens esperam que novas dinâmicas possam surgir, possibilitando mais oportunidades para trabalhadores remotos que não vivem nos grandes centros urbanos.

Além disso, os jovens estão mais críticos em relação às informações que recebem. 67% dos entrevistados confiam pouco ou nada nas notícias veiculadas pelo Whatsapp e 47% deles desconfiam dos feeds do Instagram e do Facebook. Em contrapartida, a credibilidade de sites de notícias verificados e órgãos oficiais aumentou durante o período.

Para Vitor Lauro, um dos participantes do grupo focal, a frase “voltar ao normal” não faz mais sentido para as juventudes. “Temos assuntos imediatos que precisam ser tratados com grande urgência e queremos aproveitar essa oportunidade para pensar em soluções diferentes e disseminar essas discussões”, conclui.

Com o objetivo de compreender o comportamento e a perspectiva das juventudes brasileiras, a pesquisa Juventudes e Conexões, realizada pela Fundação Telefônica Vivo, em parceria com a Rede Conhecimento Social e o IBOPE Inteligência, também configura-se como uma ferramenta para aprofundar a escuta ativa dessa parcela da população.

Em sua terceira edição, lançada em setembro de 2019, a pesquisa trouxe dados relacionados às expectativas dos jovens sobre o mundo conectado. Empreendedorismo, participação social, educação e comportamento. Estes quatro eixos foram explorados para ampliar as possibilidades e movimentar políticas públicas no intuito de oferecer recursos compatíveis às necessidades dos jovens do século XXI.

Para saber mais sobre a relação da juventude brasileira com as diferentes formas de conexão na era digital,  acesse o estudo completo aqui!



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