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Apostamos na força transformadora da educação, conectando pessoas ao conhecimento.

Mais do que um reconhecimento pessoal, indicações mostram caminhos possíveis para uma educação pública de qualidade no Brasil.

Uma professora que utiliza sucata para ensinar robótica e um professor que por meio do cinema e da fotografia aproximou alunos e comunidade do currículo escolar. Com essas propostas, Débora Garofalo e Jayse Antonio Ferreira representam o Brasil entre os 50 finalistas do Global Teacher Prize, premiação considerada o “Nobel da Educação”.

Organizada pela Varkey Foundation, a premiação Global Teacher Prize foi criada em 2015 para reconhecer o professor que mais contribuiu para a profissão com a criação de projetos que possam ser replicados em outras partes do mundo com impacto para a comunidade. Em 2018 foram registradas 30.000 inscrições de profissionais de mais de 120 países.  Em fevereiro deste ano serão escolhidos 10 entre os 50 finalistas e o melhor projeto será conhecido em entre os dias 22 e 24 de março, em uma cerimônia em Dubai.

Primeira mulher do país a concorrer ao prêmio internacional, Débora Garofalo tem uma trajetória com muitos pontos de convergência com a do colega Jayse Antonio: vieram de famílias humildes, batalharam muito para seguir a carreira docente, valorizam novas metodologias e trabalham projetos que envolvem várias disciplinas ao mesmo tempo, estimulando o protagonismo dos alunos.

Ambos também concordam que, independentemente do resultado a ser anunciado em março, a indicação entre os 50 melhores docentes do mundo já traz um importante reconhecimento à profissão, ainda mais no Brasil, país onde menos de uma em cada dez pessoas acreditam que o professores sejam respeitados em sala de aula.

Da reciclagem à tecnologia

“Desde criança tinha o sonho e a vontade de ser professora. Minha brincadeira preferida de uma infância muito simples e difícil era pegar uma lousa pequena que ganhei da minha mãe e ensinar os meus amigos do bairro e da escola”, relembra a educadora Débora Garofalo.

Caçula de três irmãs e criada apenas pela mãe, Débora comemorou ao ingressar no Magistério logo após o ensino médio, mas foi obrigada a parar. O salário era insuficiente para pagar a faculdade e assim, acabou na área de recursos humanos de uma multinacional que fabricava circuitos impressos.

Formada e concursada, passou a trabalhar durante o dia na indústria e lecionar à noite, na rede estadual. Somente em 2008 pediu demissão, mesmo por um salário menor, para se dedicar integralmente ao antigo sonho de ser professora.

Hoje, além de formada em Letras e Pedagogia, é mestranda em Educação pela PUC-SP e leciona na EMEF Almirante Ary Parreiras, em São Paulo. Foi ali que nasceu a ideia de juntar robótica com sucata, trazendo ao palco a construção de utensílios feitos com material reciclado retirado das ruas para mediar a construção de conhecimento sobre eletrônica e robótica. O processo de inventar diversos dispositivos envolve todo o conteúdo curricular e faz conexão com matérias como matemática, língua portuguesa, geografia, história, ciências e artes.

O projeto já foi reconhecido pelo Prêmio Professores do Brasil e rendeu inúmeras indicações a sua autora, como o destaque no desafio de aprendizagem do MIT. Para Débora, isso demonstra que está no caminho certo e possibilita a abertura para que outros professores trabalhem com o ensino de programação e de robótica, “essenciais para a sociedade contemporânea por trabalhar a colaboração, empatia e resolução de problemas”, diz.

“O trabalho nasceu da vontade de transformar a vida de jovens e crianças da periferia da zona sul e de usar a tecnologia não como um fim, mas como uma propulsora de aprendizagem. E  trouxe muitos ganhos “, garante a professora

Impactos positivos 

Débora conta que a primeira mudança foi a atitude dos alunos, que não se viam capazes de criar protótipos e tampouco achavam que conseguiriam melhorar a questão do lixo na comunidade. O projeto já transformou a vida de 2.000 jovens e crianças da rede pública por meio de uma prática pedagógica que ensina o aluno pela sua criatividade, pela experimentação de ideias e exploração de pesquisas para propor soluções às suas comunidades.

O aprendizado mão na massa trouxe uma melhora de 3,2 para 5,2 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Além disso, a construção de robôs e materiais eletrônicos já retirou uma tonelada de lixo reciclável e eletrônico das ruas de São Paulo.

A educadora atribui tanto sucesso à oportunidade de exercitar na prática os conhecimentos das disciplinas aprendidas em sala de aula. “É um trabalho coletivo, o que contribui para a diminuição do trabalho infantil e também da evasão escolar”, ressalta.

Recriando Hollywood em Pernambuco

“Nossa, parece assim que não é real! A gente sabe que nosso trabalho muda vidas, mas nunca achamos que vai ser reconhecido nesse nível. Também traz responsabilidade porque o jeito que lecionamos é a soma de vários professores que tiveram ideias incríveis. É uma honra representar todo mundo que me deu apoio até aqui”, assim Jayse Antonio Ferreira descreve a emoção de ser indicado entre os finalistas do Global Teacher Prize.

Primeiro da família a ter curso superior, ele nunca havia pensado em dar aulas até um antigo professor elogiar seus desenhos e sugerir que ele poderia ensinar Artes no futuro.  A pouca instrução dos pais – o pai é analfabeto e a mãe só cursou até o primeiro ano – não o impediu de batalhar para se formar em Educação Artística na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, capital mais próxima da pequena Itambé (PE).

Graças a uma ajuda de custo para o transporte, durante quatro anos e meio ia e voltava todas as noites da capital. Apesar de morar em uma cidade de 36 mil habitantes, o pai sempre o esperava, preocupado com a violência.  Em 2005, tornou-se professor na Escola Estadual de Referência em Ensino Médio Frei Orlando.

“Me deparei com realidades difíceis, crianças que apanhavam dos pais. Tudo isso começou a interferir no aprendizado e assim comecei a inovar e a mudar a forma de ensinar”, afirma Jayse Antonio.

A inovação veio por meio do audiovisual. Em 2014, foi reconhecido no Prêmio Professores do Brasil pelo projeto Eu sou uma Obra de Arte: Etnias do Mundo, que trabalhou a autoestima dos alunos por meio de retratos e discutiu temas como racismo e bullying.

O educador costuma ouvir dos alunos que o conteúdo na sala de aula não dialogava com a vida deles, que não representava o cotidiano e estava distante do que gostavam.  Propôs então que eles falassem sobre seus interesses e eles citaram games, séries, livros e filmes.

Em 2016, aproveitou que o tema de um dos bimestres era cinema e, junto a outros professores, conseguiu desconto com um shopping em João Pessoa-PB para custear parte do ingresso dos estudantes. Muitos foram ao cinema pela primeira vez e se empolgaram para o projeto Vamos EnCURTAr essa História, que também viria a ser reconhecido pelo MEC.

A ideia era que cada aluno produzisse o próprio roteiro, escrevendo obras baseadas em seus interesses. Depois, o texto para as gravações era construído em sala de aula. Além dos recursos visuais e tecnológicos, foram levantados temas ligados ao audiovisual.

Entre três curtas-metragens produzidos, uma releitura de Harry Potter acabou viralizando após a página brasileira oficial da franquia compartilhar a produção nas redes sociais. “Mesmo com muita repercussão positiva, recebemos enxurrada de críticas pelo sotaque nordestino, mensagens de ódio. Avisamos a Secretaria de Educação para falar sobre o caso – eles vieram e entenderam como o trabalho foi feito. Na aula de filosofia debatemos sobre o lado positivo e o negativo da iniciativa”, relembra Jayse.

Além de engajar alunos em temas ligados à maneira como se enxergam na sociedade, os projetos também serviram para aproximar a comunidade escolar. Sem ajuda financeira da escola para as gravações, o educador passava no comércio e avisava que precisa de uma roupa parecida com a do Harry Potter, por exemplo, e todos ajudavam a achar.

Como forma de mostrar os resultados de tudo que vinham produzindo, foi organizada no segundo semestre de 2017 uma exibição pública dos filmes produzidos na praça da cidade e a experiência ficou marcada para o educador.

“Foi incrível ver os pais com os olhos brilhando, ver o orgulho deles pelos filhos! Não é o recurso que faz o trabalho ser bom, o que faz a diferença é a criatividade!”, destaca Jayse Antonio.

Desejos para o futuro

O professor de Itambé-PE está aproveitando o momento para empoderar outros colegas e mostrar que é possível vencer como educador e que a profissão não perde nada em relação a outras carreiras mais valorizadas, como a medicina.

“A realidade é que existem dificuldades como em qualquer profissão, mas esse prêmio mostra que o professor é incrível e é isso que me deixa mais feliz. Amo o que faço! Costumo dizer que o médico salva uma vida, mas um professor salva uma geração.”

A professora Débora Garofalo também diz sentir uma grande alegria pela indicação. Não só por ter sido a primeira mulher da história do Brasil a ser indicada, mas principalmente por um júri internacional renomado ter qualificado seu trabalho com tecnologia como possível de ser replicado ao redor do mundo. Ela sonha com uma revisão das práticas pedagógicas e com melhor estruturação da educação pública brasileira.

“A escola não é uma ilha, por isso necessita da sociedade em geral. É necessário melhorar salários e intensificar a formação continuada. As universidades precisam se aproximar das escolas públicas para que os professores tenham possibilidade de participar ativamente das politicas públicas. Os alunos devem ter voz e atuar diretamente em sua aprendizagem, encontrando no professor um parceiro e um mediador que também aprenda junto no processo”, conclui a educadora.

Conheça os professores brasileiros que concorrem ao “Nobel da Educação”
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