Projeto de vida é uma ponte com as diversas juventudes brasileiras

09 de outubro de 2020

Eventos on-line marcam o início do segundo módulo de formação continuada de educadores na Bahia e apontam caminhos para construir uma aprendizagem significativa junto aos jovens


Cerca de 700 educadores da rede pública da Bahia concluíram a primeira etapa da formação continuada sobre projeto de vida, organizada pela Secretaria de Educação do Estado em parceria com a Fundação Telefônica Vivo. Dois eventos online marcaram o início da segunda e última etapa formativa, que deve ser concluída em novembro.

Contando com a participação de especialistas, foram abordados possíveis caminhos para educadores consolidarem pontes com os estudantes na construção de um Novo Ensino Médio, que leve em conta a diversidade das juventudes brasileiras.

Como funciona a formação?

A primeira etapa teve início em maio deste ano e foi feita pela plataforma Escolas Conectadas, que oferece cursos gratuitos a professores e foi um dos importantes meios digitais usados na troca de conhecimento, já que os encontros presenciais estão suspensos devido à pandemia.

Desenvolvido pela Fundação Telefônica Vivo, faz parte  do ProFuturo, projeto global da Fundação Telefônica e Fundação ”La Caixa” que tem entre seus pilares a formação continuada e a inovação para o século XXI.

Outra ferramenta fundamental de apoio aos educadores é a metodologia do programa Pense Grande. Pensada para a disseminação da cultura empreendedora, traz reflexões sobre autoconhecimento, autonomia e resolução de problemas, além de competências e habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Todo o processo formativo vai totalizar 41 horas, e será feito em meios digitais e conduzido pelas equipes da AFETO – Educação, Comunicação e Juventudes e da CIPÓ – Comunicação Interativa, parceiras da Fundação.

Além de um momento de inspiração, a  primeira live, no dia 10 de setembro, serviu como um evento de integração, já que os 700 educadores, de nove polos educacionais, foram divididos em duas turmas no primeiro módulo.

“Esta parceria é incrível, o engajamento da rede de ensino na Bahia é acima da média! Nos reinventamos constantemente e, na pandemia, é um desafio a mais manter o diálogo e acolher as famílias. Nosso desejo é de manter e fazer a parceria crescer ainda mais!” exaltou Luciana Scuarcialupi, coordenadora de projetos sociais da Fundação Telefônica Vivo.

O secretário de Educação da Bahia, Jerônimo Rodrigues, também elogiou e agradeceu pelo trabalho de todos os envolvidos. “Estamos muito contentes com essa parceria. O tema projeto de vida repercute com força e delicadeza no dia a dia da escola. Esse trabalho do educador se torna visível no sorriso dos estudantes, no brilho nos olhos deles”, discursou.

 

Lições importantes sobre projeto de vida 

A educadora, jornalista e ex-diretora do Instituto Inspirare, Anna Penido, foi quem conduziu o encontro de integração. Além de toda a sua trajetória no campo da educação, foi muito celebrada pelos educadores por ser de origem baiana.  Na fala inicial, ela citou a perda do marido, o jornalista e ativista pelos direitos humanos Gilberto Dimenstein, como uma lição e fez um paralelo com a temática do projeto de vida.

“Foi diagnosticado com câncer e, em 10 meses, vivemos essa luta. Em nenhum momento se desesperou, ou se revoltou e dizia todos os dias: ‘consegui realizar minha missão. Vou orgulhoso do nome que construí e do legado que deixo’. Quem não tem propósito, não tem uma narrativa, é como um ator no palco sem roteiro, sem falas, sem enredo”, afirmou.

Para a especialista, o projeto de vida orienta algo muito maior do que uma escolha profissional ou graduação acadêmica, pois trata-se quem o jovem quer ser no mundo. “É fazer com que ele entenda suas potencialidades, conheça seus interesses e leve em conta limitações, receios, dificuldades pessoais e de contexto. É fazer com que entendam que não há caminho em linha reta, que é preciso buscar autoconhecimento, perseverança e determinação.”

Antes de passar a palavra para dois educadores da rede estadual da Bahia, que já vivenciam a temática em sala de aula, e para uma aluna que fala do impacto do componente em seu dia a dia escolar, a especialista deixou um recado aos participantes.

“É muito difícil trabalhar projeto de vida de outras pessoas quando a gente não trabalha o nosso próprio! Esta formação aqui vocês vivenciam para sempre. É também para identificar suas aspirações e metas e o que vai realizar do ponto de vista pessoal e profissional. Sigo porque quero transformar a minha vida e também a dos meus alunos”, finalizou Anna Penido.

 

Depoimento de quem já trabalha na prática

Foto de perfil da professora
“Nenhum componente pode ser trabalhado isoladamente. Estamos sempre permeando os saberes e é impossível trabalhar projeto de vida sem as outras dimensões, sem multidisciplinaridade e transdisciplinaridade. O desafio é diário e estamos tentando fazer com que os meninos levem o aprendizado para suas vidas. Não podemos falar individualmente. Eu não sou, nós somos!”, Professora Andréa Rosa Oliveira Souza, do Centro Estadual de Educação Profissional em Gestão e Negócio do Centro Baiano (Pólo Jacobina).

 

Foto de perfil da estudante Lara
“Passei ao primeiro ano do Ensino Médio e não esperava pelo projeto de vida como componente curricular, foi uma surpresa. Está sendo gratificante, trabalha muito com nossos sentimentos e emoções.  Me ajuda em questões de desenvolvimento, antes não conseguiria estar falando aqui. As atividades mudaram muito a minha forma de ver as coisas, em refletir como podemos ter felicidade em nossa vida. E isso é muito importante, na minha opinião. A gente quer orientação e projeto de vida está fazendo isso”., Lara Santos, estudante da professora Andréa Rosa Oliveira Souza.

 

Foto de perfil do professor Emerson
“Sou resultado de projetos sociais e escolares que me fizeram pensar na importância e no sentido da educação como um caminho para me projetar no mundo. Hoje faço mestrado na área de Filosofia. Tenho aprendido muito nesta formação que me permite entender minha responsabilidade hoje. E tenho buscado abraçar toda a comunidade escolar para entendam também a importância de cada um deles. Não faz sentido uma educação que separa professores. Nesse cenário de pandemia começamos integrando componentes e projetos que já existem na escola e precisam dialogar com o componente de projeto de vida.”., Professor Emerson Costa Farias, da Escola Estadual Desembargador Pedro Ribeiro (Pólo Salvador).

 

 

Um panorama das juventudes brasileiras 

No evento Juventudes – identidades, questões e demandas atuais, que aconteceu no dia 23 de setembro e marcou a abertura oficial para o segundo módulo, a pesquisadora, cientista social, doutora em antropologia social e professora visitante da Unirio, Regina Novaes, trouxe aos educadores em formação um quadro geral do que é ser jovem no Brasil atual.

A especialista explicou que é preciso entender o conceito de geração como aquilo que se refere a um tempo histórico, o que engloba marcas e símbolos compartilhados no tempo em que se vive. Nesse sentido, toda experiência geracional é inédita e aponta o presente.

“A juventude é como um retrovisor da sociedade, um espelho que mostra a sociedade, porque reproduz a sociedade, ao mesmo tempo em que amplia o que está acontecendo agora, como se fosse uma lupa”, explica Regina Novaes.

Regina define o significado de juventude como viver em um mundo em que o on-line e o off-line se fundem, em que se convive com um nível maior de violência física e simbólica, em que há preocupação com temas como migrações, ameaças devido à mudança climática e a não garantia de emprego. Para ela, também é um tempo em que há novas maneiras de se estar no mundo, com grupos mais diversos tanto do ponto de vista religioso, de orientação sexual e onde temas urgentes como o racismo não podem mais ser ignorados.

A especialista chamou a atenção ainda para a importância se de conhecer instrumentos como o Estatuto da Juventude e de provocar nos jovens a consciência sobre direitos e deveres para atuarem ativamente na comunidade. “É preciso construir uma escola que caiba na vida dos jovens do século XXI. Uma das grandes questões é que os jovens não podem ser espectadores, eles precisam pensar e ter criatividade”, aponta a pesquisadora.

E se a escola não é também mais o único lugar para aprendizado de conteúdo, é um espaço seguro para debater sobre obstáculos e barreiras, onde o diferente pode conviver, estabelecendo conexões para o bom uso da tecnologia, acesso a lazer, aos esportes, às artes. “Projeto de vida pode ser pensado como uma forma de traçar um caminho reconhecendo obstáculos e dificuldades a serem enfrentados”, finaliza Regina Novaes.



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