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Betty e Brenda Agi são fundadoras da ONG Compaixão Internacional. Em 2020, foram reconhecidas pela ONU como uma das 100 pessoas negras mais influentes do planeta

#Voluntariado

Brenda e Betty Agi são fundadoras da ONG Compaixão Internacional, que desenvolve projetos nas áreas de educação, saúde, empreendedorismo, combate à pobreza e desigualdade social. Elas já apoiaram mais de 70 mil pessoas em 17 países. Hoje, atuam em três escritórios no Brasil, um em Angola, contando com mais de 40 voluntários fixos e cerca de 1.000 temporários – chamados a depender do projeto.

As irmãs têm pouco menos de um ano de diferença de idade, nasceram em Brasília, mas moram em Anápolis (GO). Em 2020, figuraram entre as 100 pessoas negras mais influentes do planeta segundo o Mipad – premiação da ONU que homenageia anualmente os afrodescendentes mais influentes do mundo.

Formadas em biomedicina, é como empreendedoras sociais que dedicam suas vidas a projetos do terceiro setor. “Como diz o nosso slogan, a sua vida não precisa ser só sua”, afirma Betty. E a trajetória dessas irmãs impressiona!

A lista que homenageia anualmente os afrodescendentes mais influentes do mundo foi divulgada em outubro de 2020, após a abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, durante a Cerimônia de Reconhecimento e Premiação de Pessoas Mais Influentes de Afrodescendentes (Mipad, na sigla em inglês).

São identificados nomes divididos em quatro categorias: Política & Governança, Negócios & Empreendedorismo, Mídia & Cultura e Humanitarismo & Ativismo. No ano passado, dez profissionais brasileiros foram premiados. A deputada estadual e educadora Erica Malunguinho é a primeira transgênero a figurar na lista, em Política & Governança. Em mídia & cultura, foram citados a cantora e compositora Iza, o cantor baiano Leo Santana e o editor internacional da CNN Brasil, Renan Souza.

As co-fundadoras da ONG Compaixão Internacional foram reconhecidas na categoria humanitarismo & ativismo ao lado da bailarina e ativista Ingrid Silva, que é a principal bailarina da Companhia Dance Theatre of Harlem, em Nova York. Em 2017, Ingrid lançou a EmPowHer NY, organização sem fins lucrativos que oferece uma plataforma colaborativa criada para compartilhar histórias e dar voz a mulheres. Ela ainda colabora com o Blacks in Ballet, que conta histórias de bailarinos negros clássicos, e o projeto Dançando pra Não Dançar, que leva balé às favelas do Rio de Janeiro, onde começou a dançar, aos 8 anos.

“As meninas dos chinelos” 

Betty e Brenda são filhas de pai moçambicano, e mãe brasileira, do Rio de Janeiro. “Meu pai veio para o Brasil com 30 anos, então ele sentiu a dificuldade de estar em outro país e construir a sua história. Por não vir de uma família de grandes posses, eles sempre passaram pra gente que o que poderia mudar a nossa história, que iria nos dar segurança, era a educação. Eles eram muito criteriosos quanto a isso”, explica Betty.

O pai, que era professor de matemática, e a mãe, especializada em alfabetização, começaram a educar as duas meninas em casa. Aos 3 anos, elas já eram alfabetizadas em português e inglês, e sabiam fazer contas simples de matemática. Foi por causa da mãe, adotada quando adolescente por missionárias norte-americanas, que as garotas tiveram contato com as duas línguas desde cedo.

Aos 15 anos, já ingressaram na faculdade de biomedicina. Ao se formar, aos 19, já começaram a pensar sobre o futuro profissional. “A gente não queria entrar em um laboratório para trabalhar um ano e só depois ter férias para fazer voluntariado. Nós tínhamos o sonho de mudar o mundo e trabalhar globalmente”, conta Betty.

Trocaram a festa de formatura por uma viagem a Angola. “Foi nossa primeira viagem internacional”, afirma Brenda. Foram trabalhar como biomédicas voluntárias em três hospitais do país africano. Aos finais de semana, para se aproximar da comunidade, davam aulas de dança a crianças e jovens (elas também são bailarinas).

Assim, foram convidadas a dar aula para a cerca de 200 crianças no Deserto do Kalahari. “Vimos que uma criança começou a chorar muito, e percebemos que ela estava descalça em uma areia quente. À medida que ela ia fazendo os passos, a areia ia ferindo o pé dela. Ao olhar em volta, percebemos que a maioria estava descalça”, conta Brenda.

Na região, um par de chinelos custava cerca de 40 dólares. Impossibilitadas de oferecer calçados a todos, voltaram ao Brasil decididas a reunir e enviar aquelas crianças 250 pares de chinelos. Nos primeiros meses de campanha, arrecadaram 10 mil pares.

Também se multiplicaram os pedidos, vindos da Índia e do Haiti, além da demanda em território brasileiro. “Começamos com 250 pares, mas utilizando as redes sociais tudo se expandiu muito rápido. As pessoas entravam em contato com a gente dizendo que tinham outras necessidades em outros locais. Levamos um susto, porque não era pra ser desse tamanho. Na viagem para Angola, o nosso objetivo nunca foi o de abrir ONG”, conta Betty.

A partir daí, elas criaram a Compaixão Internacional. Comunidades de oito estados brasileiros e em outros 17 países receberam doações de chinelos. Entre eles estão Moçambique, Guiné-Bissau, Índia, Senegal e a Comunidade Kalunga, formada por descendentes de quilombolas. Foi por meio dessa primeira campanha de arrecadação que ganharam o apelido de “as meninas dos chinelos”.

A ONG e seus projetos 

Uma década passou desde a arrecadação dos primeiros 250 chinelos. Hoje, a ONG está presente em 17 países e desenvolve sete projetos ao longo do ano: Doe Chinelos, Projeto Kiluba, Sol é para Todos, Projeto Campo, Compaixão Angola, Compaixão no Sertão e Compaixão Rio de Janeiro.

O projeto Sol para Todos luta pelos direito dos albinos em comunidades africanas, onde o albinismo é visto com tabu, um sinal de mau presságio. “Entendemos que dá para ter um trabalho de caráter educacional. Muitas pessoas albinas não conseguem ingressar no mercado de trabalho, tem muita evasão escolar. Quando entendem que o albinismo não é uma maldição, que não é uma deficiência mental, que não é contagioso e que não devem se envergonhar por isso, assumem o protagonismo da vida delas”, explica Betty.

Outro projeto da Compaixão Internacional é a Escola Kiluba, focada em corte, costura e artesanato para mulheres em situação de risco e vulnerabilidade social. O projeto é itinerante e contém aulas práticas (corte, costura, modelagem, crochê e artesanato) e teóricas (empreendedorismo, técnicas de vendas, gestão financeira e gestão de tempo). As ações acontecem em Angola, Moçambique e no Brasil (na cidade goiana de Anápolis).

Por conta da pandemia, os projetos estão parados, mas, uma vez que retornarem, o foco da organização será em empoderamento e capacitação para que mais pessoas possam ser donas dos próprios negócios. “Quando abrirmos as vagas para o projeto Kiluba, o foco é de ter cursos mais rápidos para ter um retorno de renda mais rápido, para o nosso público beneficiário sair da situação de risco em que ele se encontra”, diz Betty.

 

Erros e aprendizados como empreendedoras sociais 

Errar é comum e necessário para quem empreende. E não foi diferente com as irmãs Agi. “Já tentamos abraçar o mundo e entrar em projetos que não tínhamos a expertise e estrutura para fazer. Já cometemos o erro de esperar que tudo esteja pronto para começar”, conta Brenda. Mas ao errar, elas também se permitiram aprender e evoluir.

“O importante mesmo é começar. A gente começou sem nada, mas tem gente que tem menos. Não vou esperar ser milionária para fazer alguma coisa. A gente tem que começar com o que tem”, ensina Betty.

Também é fundamental não agir apenas na emoção, mas tentar, ao máximo, ser assertiva. “Não adianta fazer um conjunto de esforços se você não sabe se aquilo está certo, se você dá muitos passos na direção errada”, explica ela.

Entre tantas lições acumuladas em tantos anos de atuação, estudar os problemas a serem solucionados e buscar a expertise necessária é uma das principais. Brenda pontua que outro grande aprendizado é saber esperar: “a gente sabe que as coisas são gradativas, então se você tem paciência, planejamento, e execução, o resultado vem”.

As brasilienses não escondem que já se decepcionaram inúmeras vezes. “O meu maior orgulho foi nunca ter desistido. Passamos por centenas de situações que poderíamos ter desistido. Se a gente se decepcionou 90 vezes, pelo menos acreditamos 91 vezes, e este é o número que importa”, conta Betty.

E esta inspiração não serve só para quem é atendido pela ONG, mas também para profissionais em dúvida entre trabalhar com negócios sociais ou no mundo empresarial. “Dá para unir as duas coisas. Hoje nós somos muito realizadas enquanto empreendedoras sociais, mas também 100% realizadas nos negócios. Dá pra viver nos dois mundos. Eles não são diferentes, e sim complementares”, finaliza Betty.

Reconhecidas pela ONU, irmãs já apoiaram mais de 70 mil pessoas em causas humanitárias
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