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Pesquisa do Instituto Península identificou as principais preocupações dos educadores brasileiros sobre a volta às aulas. O documento também aponta quais principais mudanças ocorreram na educação durante esse período.

#ProFuturo

Há oito meses, escolas públicas e particulares brasileiras suspenderam gradualmente as aulas presenciais diante da ameaça do novo coronavírus. Estados e municípios se organizaram para dar conta do ano escolar através de recursos tecnológicos e ensino remoto.

Professores que nunca haviam dado aulas a distância passaram a gravar conteúdos em plataformas digitais, canais de televisão e até rádio. Muitos mantiveram contato com os estudantes de forma virtual ou levaram atividades impressas para quem não tinha acesso à internet.

No final de outubro, no entanto, o ministro da Educação afirmou que a intenção era de que as aulas presenciais regulares voltassem o mais cedo possível nos estados. Com base na situação epidemiológica e da curva de contágio de cada cidade, as regiões foram optando ou não pelo retorno gradual.

Mesmo seguindo os protocolos das autoridades sanitárias locais, a volta às aulas carrega a insegurança dos pais e professores. A pesquisa Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil, do Instituto Península, que já está em sua terceira etapa, aponta que a maioria dos educadores está se sentindo desconfortável com o provável retorno.

• 64% dos professores estão se sentindo ansiosos, e 53% sobrecarregados, na maior parte do tempo. • 1 em cada 3 profissionais da Educação básica relata ter piorado em certos aspectos da vida, como a prática de atividades de lazer e cultura, condicionamento físico e qualidade do sono. • Os principais desafios relacionados ao ensino remoto são a falta de infraestrutura (79%) e a dificuldade para engajar os alunos (64%). • Cerca de 80% tem mantido contato com seus alunos. Dentre eles, mais de 50% o fazem pelo menos 4x na semana. • Em média, o nível de conforto em relação a volta às aulas é de 1,07 (em uma escala de 0 a 5, em que zero é nada confortável e cinco muito confortável). • 73% dos professores gostariam de apoio para lidar com os protocolos de retorno e questões de saúde, e 68% gostariam de apoio para dar suporte emocional para os alunos. • Sobre o legado da pandemia para a profissão docente, 72% dos educadores acredita ser a importância da tecnologia para uso pedagógico, e a valorização da carreira docente pela sociedade. Fonte: Pesquisa “Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil” (Estágio controlado - 20/07 a 14/08) do Instituto Península

O Instituto implantou um cronograma de quatro pesquisas em cada um dos estágios do novo Coronavírus no país. A terceira fase corresponde ao período de quatro a seis semanas antes do retorno às aulas presenciais (realizada entre julho e agosto). Ela busca compreender como os professores brasileiros estão se sentindo, seus medos, anseios e demandas de apoio.

Educadores se sentem mais ansiosos

Os educadores continuam se sentindo ansiosos na maior parte do tempo. No período anterior (entre duas e seis semanas após a suspensão das aulas presenciais), apenas 32% se sentiam sobrecarregados, agora são 53%. A maior preocupação do professor, segundo a pesquisa, está relacionada à saúde mental de seus alunos. No período anterior, a maior preocupação era em relação à saúde de seus familiares.

Lilian* é professora de História da rede municipal de ensino de um município no interior de Santa Catarina. Ela trabalha em três escolas diferentes, com alunos do 6º ao 9º ano. “Eu estou ansiosa, sim. Mas acho que o mais define é a frustração. No começo eu tentava fazer muitas atividades, tentava ser criativa, mas o ritmo fora da escola é outro. Os alunos estão muitos cansados de não ter contato com os colegas e os professores”, conta.

A falta de infraestrutura e a dificuldade para engajar os alunos, aparecem como os principais desafios relacionado do ensino remoto (79%). Apesar disso, a maioria dos educadores (63%) afirma que a tecnologia passou a ser aliada da aprendizagem.

“Estando em casa, o aluno vai ter que aprender sozinho, por isso tivemos que adaptar nossas aulas dando todas as ferramentas para que ele consiga compreender o conteúdo sem nosso suporte”, diz Lilian. “Mesmo mantendo contato, é difícil saber ao certo se eles estão acompanhando. Nós vamos entender a dimensão da defasagem apenas quando voltarmos ao presencial”, conclui.

A professora de História começou a ir para as escolas recentemente. Ela está dando aulas de reforço para alguns estudantes, e apoiando aqueles que não conseguem ter acesso aos vídeos postados na plataforma de ensino.

Segundo a pesquisa, em uma escala de 0 a 5, em que zero é nada confortável e cinco muito confortável, a média do nível de conforto de professores em relação a volta às aulas é de 1,07. “Não dá para se sentir confortável em uma sala com 38 alunos. Se eu transmitir o vírus para algum destes estudantes, me sentirei responsável por isso”, conta, preocupada, Lilian.

A ausência de vacina faz com que essas medidas de distanciamento e protocolos sejam mantidos pelos órgãos reguladores. O Ministério da Educação (MEC) lançou, no começo de outubro, um guia com orientações de volta às aulas presenciais. Também buscando dar apoio à comunidade escolar um grupo de trabalho ligado ao departamento de São Paulo do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) elaborou o “Manual Técnico para Escolas Saudáveis”.

Este documento sugere ambientes bem iluminados e ventilados, a produção de cartazes e murais colaborativos, intervenções nas paredes e no chão, além da sinalização humanizada, na altura das crianças.

No entanto, até que uma imunização em massa seja feita, a situação está longe de ser “normal” ou “tranquila”. Uma mudança na organização escolar é necessária, e especialistas apontam aulas com um misto de alunos presenciais e alunos on-line em uma escola transformada pela tecnologia e pelo ensino híbrido.

Desafios e alternativas

Os três maiores desafios da volta às escolas, segundo os educadores, são: o funcionamento escolar em condições sanitárias adequadas para que se evite a disseminação do coronavírus (86%), lidar com o receio da contaminação do coronavírus (83%) e recuperar a aprendizagem perdida dos estudantes com a retomada das aulas presenciais (67%).

Nenhuma opção para lidar com este contexto, que é inédito, é o ideal. Como disse Lilian, a defasagem será uma realidade. “2020 não foi um ano perdido, nós trabalhamos muito, mas de uma maneira diferente. Reprovar e fazer tudo de novo não é uma solução”. O Conselho Nacional de Educação (CNE) orienta para que se evite a reprovação escolar. Em documento oficial, o órgão do MEC aconselha que os métodos de avaliação sejam revistos e se adotem medidas que minimizem a retenção escolar.

Atividades avaliativas, durante o retorno, serão imprescindíveis para ter uma real dimensão de quais interferências pedagógicas precisarão ser feitas no próximo ano. Lilian já vislumbra, por exemplo, ter que retornar com assuntos abordados em 2020.

Segundo a educadora, este também seria um bom momento para pensar em um novo modelo de ensino e aprendizagem mais alinhados com as novas tecnologias. Hoje, segundo a pesquisa, 94% dos professores reconhecem a importância da tecnologia para a aprendizagem. “Os alunos podem fazer pesquisas, vídeos e entrevistas com o celular, e se não pensarmos em maneiras mais criativas de trabalhar, estaremos perdendo uma boa oportunidade”.

Apoio emocional e caminhos possíveis

A principal demanda dos professores é o apoio para lidar com os protocolos de retorno (73%), assim como apoio para dar suporte emocional para os alunos (68%). Segundo a pesquisa, 79% dos professores declaram que irão adotar estratégias de acolhimento e apoio emocional para os estudantes.

A pandemia reforçou que as emoções não podem ser dissociadas dos processos de aprendizagem, e por isso trabalhar as habilidades socioemocionais com os alunos é urgente. Segundo a pesquisa Juventudes e a Pandemia os principais desafios dos jovens para estudar em casa não estão na falta de tempo ou no aparato tecnológico disponível, mas sim no equilíbrio emocional, na dificuldade de organização para o estudo à distância e a falta de um ambiente tranquilo em casa.

A saúde mental dos educadores também não pode ser esquecida. Durante a pandemia eles mudaram a sua prática pedagógica, trabalharam além do turno de trabalho, e reportaram um alto nível de ansiedade. Foi pensando nisto que Instituto Península criou o guia Orientações de Acolhimento para Professores.

O documento tem por objetivo propor metodologias de acolhimento ao professor no retorno às aulas presenciais, indicando caminhos como práticas de autocuidado, espaços individuais de escutas e novos rituais. O primeiro passo é escutar o educador, e em seguida acolhê-lo através do diálogo, reforçando que a escola não é apenas um espaço de “depósito de conteúdos”.

“Ao propor caminhos e reflexões para o acolhimento dos educadores na retomada das atividades presenciais de ensino, compreendemos que as realidades e formas de gestão das escolas públicas no país são muito diversas e que cada equipe gestora deverá ajustar estas propostas para responder à sua realidade. Mas, ao mesmo tempo, embora sendo tão diferentes, somos todos o mesmo Brasil e, precisamos juntos encontrar caminhos viáveis e respostas possíveis”, ressalta o texto de introdução do documento disponível para download.

*O nome foi mudado a pedido da entrevistada.

Volta às aulas traz preocupações aos educadores, segundo pesquisa
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