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Primeira cadete com deficiência visual da 42 em todo o mundo, Luciana quer transformar a perspectiva sobre inclusão e acessibilidade no universo digital

#42SãoPaulo

A cadete Luciana Oliveira posa para foto na 42 São Paulo

Quem faz a 42 São Paulo?

Nome: Luciana Oliveira Machado

Ano de nascimento: 1981

Cidade e Estado: Santos – SP

Profissão: Desenvolvedora de Sistemas e Relações Públicas

Turma 42 São Paulo: 1ª turma – Janeiro/2020

“O que mais me encanta na tecnologia é que ela não está preocupada com o problema em si, mas em buscar alternativas para resolvê-lo”, afirma Luciana Oliveira Machado, de 37 anos. A relações públicas e desenvolvedora de sistemas se destaca pela dedicação em transformar a experiência do usuário e a perspectiva em relação ao universo digital a partir da inclusão e acessibilidade. Ela é a primeira pessoa com deficiência visual a entrar na rede global da École 42, modelo voltado para o ensino de programação e o desenvolvimento da cultura digital de forma colaborativa e inovadora.

Ao descrever sua trajetória de vida e contar sobre as experiências que a levaram até a 42 São Paulo – primeira unidade na América Latina, em parceria com a Fundação Telefônica Vivo e Instituto 42 – a desenvolvedora usa de bom humor para relembrar episódios marcantes. Luciana ainda ressalta que a força que a conduziu foi, sobretudo, a oportunidade de trabalhar com seus pares de igual para igual.

Conheça um pouco mais sobre nossa cadete!

 

Conte-nos um pouco da sua história.

Eu enxerguei até mais ou menos 16 anos. Tenho uma doença autoimune chamada artrite reumatoide que foi tirando minha visão aos poucos. Aos 20 anos, fiquei completamente cega. Logo depois, entrei para uma escola de reabilitação para pessoas com deficiência visual. Lá, reaprendi a viver, a fazer comida, arrumar a cama, ir ao banheiro. Atividades cotidianas mais simples, só que sem enxergar.

No começo eu fazia muita terapia em grupo. Era uma forma de conviver com outras pessoas, trocar ideias e sentimentos. Também fiz terapia individual durante o processo. Aprender a viver sem enxergar não foi a parte mais difícil, mas sim aceitar essa condição. Mas foi também através da escola que conheci um esporte, desenvolvido especialmente para pessoas com deficiência visual: o goalball. e isso me trouxe um senso muito forte de disciplina e trabalho em equipe

Morei a vida toda na Baixada Santista (litoral de São Paulo), com a minha mãe e minhas duas irmãs. Por conta da Lei de Cotas para Deficientes, recebi uma oportunidade de emprego que oferecia uma bolsa de estudos na faculdade e comecei a cursar Relações Públicas na Fatec Praia Grande. Tanto na faculdade, quanto no mercado de trabalho enfrentei desafios com relação à acessibilidade nos sistemas. Em meados de 2000, as plataformas ainda não estavam atualizadas e a tecnologia para inclusão de deficientes era muito cara.

No meu caso específico, tive que contar com a ajuda dos colegas para acessar as plataformas. Era muito estressante, tanto pra mim quanto para os outros, e gerava situações desconfortáveis. Lembro que em determinado momento, comecei a trabalhar ao lado da equipe de tecnologia pra tentar pensar em formas de tornar o sistema acessível. Fomos fazendo testes e, de repente, tudo o que fazíamos no papel estava automatizado. Em dois meses conseguimos transformar os sistemas. Percebi que era isso que eu realmente queria fazer.

Por que escolheu participar da 42 SP?

Quanto mais eu desenvolvia essa sensibilidade para a importância da acessibilidade, que me tornava independente, mais eu me permitia trabalhar com as pessoas de igual para igual, principalmente no mercado de trabalho. Depois disso, decidi mudar de área e fui estudar Desenvolvimento de Sistemas.

Comecei a entrar em vários grupos nas redes sociais, principalmente os que tinham relação com trocas de informações entre mulheres e deficientes visuais. Em um desses grupos fiquei sabendo sobre a 42 São Paulo. Quando li sobre a proposta, identifiquei um diferencial em relação aos outros lugares que eu costumava frequentar e por isso, mesmo sem acreditar que passaria, decidi me inscrever.

Quais foram suas impressões durante a fase da Piscina?

Os desafios começaram logo na primeira parte do processo seletivo. Na faculdade tenho uma pessoa que me acompanha e pedi a ajuda dela para executar os comandos do teste online por mim. Ela ia me descrevendo o que eu precisava fazer e eu ia tomando as decisões. Quando descobri que passei no processo seletivo, não contei para ninguém que eu era deficiente. Eles descobriram no início da fase das Piscinas!

Outra surpresa foi quando cheguei na 42 e notei que a plataforma não era acessível. Mas o que me ajudou muito aqui dentro – e é o que diferencia essa experiência das que tive em outros lugares – foi esse senso de comunidade. Toda hora tinha alguém para me ajudar.

Aqui a lógica do raciocínio é compartilhada. Quando a gente tem contato com outras percepções e raciocínios, abre muito nossa mente para as possibilidades de chegar ao mesmo resultado de outras maneiras.

A diversidade e colaboração entre os cadetes fazem parte dos valores da 42 SP. Como você percebe isso no dia a dia? Há alguma experiência que gostaria de relatar?

Eu sou bastante grata pela experiência. Não apenas pelo meu esforço para superar todos esses obstáculos, mas também pela oportunidade de me aproximar mais das pessoas. De certa forma, os colegas começaram a querer entender uma realidade que não é comum à deles.

Durante a piscina passei por uma situação bem marcante. Havia um rapaz aqui com deficiência auditiva. Em uma das atividades, fiquei encarregada de avaliá-lo. Tivemos que usar formas alternativas para fazer essa comunicação e precisamos de três intérpretes. Um colega ajudou lendo, meu parceiro de avaliação pegou o celular para usar um aplicativo que traduzisse minha voz para Libras e outro colega passou para o computador. Com a ajuda dos colegas e da tecnologia, conseguimos! Foi muito interessante participar dessa dinâmica.

O que diferencia este lugar dos outros que já frequentou?

As pessoas não colocam a minha deficiência como se fosse um problema. Em outros lugares, eu sentia que o fato de ser cega representava uma espécie de incômodo para as pessoas. Aqui, não me sinto assim. A 42 São Paulo me deu uma chance de mostrar o quanto ainda tenho pra crescer na área de tecnologia e de conhecer pessoas para melhorar a minha experiência.

A todo o momento, a equipe os colegas se mostraram interessados em buscar alternativas para contornar a inacessibilidade e não tive que pensar em soluções inteiramente sozinha, como fiz em outros lugares.

Qual foi seu maior aprendizado até o momento?

Meu maior aprendizado foi, sem dúvidas, no aspecto atitudinal. Um dos maiores diferenciais da 42 é justamente o trabalho do lado humano, para além da tecnologia. Aprendi que trocar experiências faz a gente crescer muito mais rápido como pessoas e como profissionais. Não adianta ter um ambiente acessível, com leitor de tela e computadores personalizados se as pessoas não tiverem um olhar de empatia. Aqui nos tratamos como iguais, respeitando as diferenças.

Além da 42 SP e da sua atuação profissional, você tem algum projeto pessoal ou algo que costume fazer nas horas vagas?

Minha meta agora é tornar o jogo online do processo seletivo da 42 acessível. Assim, posso incentivar outras pessoas com deficiência visual a entrarem aqui. E nos grupos que frequento, já tem muitos manifestando interesse em saber mais sobre a 42 São Paulo.

Além disso, tenho uma pesquisa publicada sobre hábitos de consumo online de pessoas com deficiência visual. Pretendo continuar a estudar e trazer questões de acessibilidade e de experiência do usuário como pautas.

Você poderia dar algumas sugestões de filmes, séries, livros ou podcasts que te inspiram no dia a dia?

Vale a pena conferir o episódio Vozes Femininas, do podcast Papo Acessível. O programa é produzido, editado e apresentado por pessoas com deficiência visual e traz uma série de reflexões sobre a nossa realidade.

O livro OLGA, que conta a história de Olga Benário, foi o primeiro livro que li em braile. Essa experiência foi muito impactante pra mim, principalmente por ter a chance de conhecer a história dessa mulher que pensava muito à frente do seu tempo.

A série do Netflix, Black Mirror, é simplesmente genial! Cada episódio traz histórias diferentes que se passam em um futuro distópico e nos faz repensar sobre o papel das tecnologias em nossas vidas cotidianas.

Que dicas daria para quem quer se inscrever na 42 SP?

Eu diria para as pessoas virem não apenas com a mente aberta, mas com o coração aberto também.  Na 42 São Paulo a gente aprende sobre o ser humano, mais até do que sobre programação.

“Aqui nos tratamos como iguais, respeitando as diferenças”
“Aqui nos tratamos como iguais, respeitando as diferenças”