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Logo EnlighTedDias 19, 20 e 21 de outubro | Assista ao enlightED aqui!

Crédito: David Barkan
Por Carolina Pezzoni, do Promenino, com Cidade Escola Aprendiz
“Você já notou o encanto de uma escumadeira?”, pergunta a designer Graziella Iacocca, durante a entrevista. De fato, é um utensílio curioso: tem vários furinhos, é grande, gelado e, como percebe o seu filho Antônio, de 4 anos, serve para muito mais do que ajudar a preparar frituras. Este olhar para o mundo, delicadamente emprestado do universo infantil por ela e pela sócia Renata Maria, mãe do Gael (de 3 anos e meio) e do Otto (de 7 meses), é o alicerce do projeto Massacuca.

Conheça o cardápio de atividades do Massacuca e da Mingau, iniciativas que promovem um brincar simples, livre e compartilhado.

Dos seus pais, autores de livros para crianças, Graziella herdou o compromisso de estimular descobertas lúdicas no cotidiano da família. “Era algo comum em casa, e quis que fosse comum a todos”, relata. A vontade de desenvolver um projeto, porém, surgiu com a experiência da maternidade. “Comecei a perceber que muitos brinquedos não eram feitos para brincar, principalmente aqueles para bebês. É tanto aparato, apetrecho, aparelho, que acaba faltando alguma coisa.”

Ela conta aos risos sobre o estranhamento geral da família quando Antônio ganhou um tambor supercolorido que piscava e tocava rumba sozinho – sem baquetas, é claro. “Por que privar uma criança de bater? É o mais interessante da história toda, além de trabalhar o tato, a percepção de ação e reação…”, argumenta. Ela notava a mesma contradição em outras atividades corriqueiras, como o ato de comer. “Acho saudável deixar o bebê perceber os alimentos e comer com as mãos, se sujar, ir além da colher.”

Naquele momento, em novembro de 2014, Graziella juntou-se à amiga e editora Renata Maria, que partilha dos mesmos ideais, para dar início às experimentações, em casa e nas oficinas, fundando assim o Massacuca.

 

Garrafas pet e laços coloridos ganham forma de brinquedos no Massacuca | Crédito: David Barkan

A liberdade de desenvolver atividades com as crianças, sem que os resultados sejam o principal pretexto, é a premissa também da Mingau Crafts. “Para nós, não tem certo e errado. A criança pode pintar da forma como ela quiser”, destaca sua fundadora, Raquel Thomé. Para ela, que estuda Arte Terapia e Terapias Expressivas na Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), muitas ações dirigidas à infância não deveriam ser justificadas senão pelo prazer que proporcionam. “Sabemos pouco sobre a sua imensa capacidade”, afirma.

A primeira experiência profissional de Raquel com crianças, em uma escola particular na Zona Oeste de São Paulo, despertou sua vontade de direcionar o trabalho para o desenvolvimento infantil. Como professora de inglês de alunos a partir dos 4 anos, teve a oportunidade de realizar atividades de expressão artística, colhendo referências na dança, na pintura, na música. Ainda assim, havia uma lacuna. “Por mais que tenha uma proposta pedagógica mais livre, a escola ainda é uma instituição. Para fazer algo diferente, é preciso ter autorizações dos pais e tem a preocupação do que é ou não didático”, avalia.

Na edição de 2015 da Feira Plana, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, Raquel e sua então sócia Kátia Konig oficializaram a Mingau com a realização de uma oficina, depois de uma semana intensa de criação de marca, logotipo, site e produção de materiais.

Brincar na cidade
Não se trata apenas de colar lantejoulas”. Conforme afirma sua fundadora, por trás das ações lúdicas da Mingau Crafs, existe uma orientação social e política. “2015 foi um ano em que as pessoas se manifestaram muito. E, neste momento, consideramos importante dizer que apoiamos a luta dos estudantes, a equidade de gêneros e outros assuntos”. Segundo ela, em vez de inibir os seguidores, a divulgação do vídeo de um menino dançando balé nas redes sociais gerou um retorno muito positivo.
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Para Graziella Iacocca, o fato de que seu projeto seja reconhecido por um círculo de pessoas engajado, que luta por questões importantes ao Massacuca, como uma infância livre de consumismo, é um ótimo sinal. “Organicamente, temos hoje quase 10 mil seguidores; entre eles, um pessoal muito engajado, que batalha por questões em que acreditamos”, comemora. Em sua opinião, isso pode ter relação com um movimento que começou há poucos anos em São Paulo.

“Começamos a fazer umas instalações, pendurar umas garrafas no parque, chamar as crianças. Afinal, se todo mundo ocupar as ruas e os parques, os lugares deixam de ser inabitados, perigosos, deixam de não ter crianças”, reflete. Atuar em eventos como Virada Sustentável, Virada Educação, Viradinha Cultural, Ocupação dos 25 anos do ECA, entre outros, faz parte dessa intenção: mostrar que brincar tem a ver com a cidade, e não requer nada mais.

A Mingau também entrou na dança: na 1ª Jornada do Patrimônio, que aconteceu em dezembro, em São Paulo, preparou fotos de patrimônios históricos da cidade – como Estação da Luz e Masp – e convidou as crianças a fazerem mosaicos sobre as imagens, usando pedacinhos de papel colorido e outros materiais. Para Raquel, está claro que “não é apenas na escola que se formam as crianças, mas nas ruas, na cidade, em casa”.

 

Atividade do projeto Mingau | Crédito: Divulgação

Caseiro e especial
Na opinião de Graziella, romper com o comodismo de dizer que se viver em uma cidade pouco convidativa para as crianças passa também pela esfera familiar. “Não é porque se mora em um apartamento que é preciso deixar os filhos em frente à televisão. A partir de nossas próprias limitações, que são uma realidade, criamos atividades que caibam em um espaço diminuto, em uma vida em que a pessoa trabalha fora”, explica. Tanto o Massacuca quanto a Mingau são ativistas neste sentido.

“Se estamos pensando no desenvolvimento das crianças, precisamos mudar a rotina em casa também. Fazer atividades mais livres e expressivas só quando se está fora de casa é muito pouco”, afirma Raquel. O desejo dos filhos em ter seus pais por perto, como lembra a educadora, também é uma realidade. A Mingau, cujo nome remete à nostalgia da infância, procura agregar os adultos nas atividades propostas, que “estimulam as habilidades manuais, de criação e a interferência das crianças e dos adultos na confecção dos brinquedos e vivência das brincadeiras”.

Criar esse tempo de interação, segundo Graziella, não significa deixar a criança ligar o esguicho ou se cobrir de lama no meio da cozinha, mas sim se permitir um pouco mais. E garante que é possível alcançar um equilíbrio. O intuito, de ambas as iniciativas, é transformar as relações entre as crianças e o brincar, distanciados pelos aparatos que fazem tudo sozinhos, e a interação familiar.

Brincar simples e livre rende rotina mais expressiva nas férias – e no ano inteiro
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