Recomendações para Formação Docente em Inteligência Artificial (IA) na Educação Básica

Notícias

30.03.2021
Tempo de leitura: 5 minutos

Como a Finlândia está usando as escolas para combater fake news

Ao incluir o letramento midiático no currículo do Ensino Básico, o país conquistou o primeiro lugar no ranking que mede a resiliência à desinformação e tornou-se referência em educação midiática.

Imagem de uma criança olhando para a tela de celular

Em tempos de infodemia, todo dia pode ser o Dia da Mentira. O termo definido pela Organização Mundial de Saúde, surgiu para nomear um fenômeno que sempre existiu mas que, desde 2016, ganhou proporções globais: o excesso de informações, algumas precisas e outras não, que tornam difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa. Potencializadas pela própria pandemia de coronavírus, a circulação de notícias falsas se tornou uma preocupação a longo prazo para as comunidades, incluindo as escolares.

Na Finlândia, esse alerta soou com antecedência. Desde 2014, as redes de ensino finlandesas incluíram o letramento midiático como parte do currículo regular para as turmas do Ensino Fundamental e Ensino Médio. O que motivou o país a investir no letramento midiático desde cedo foi evitar que a democracia fosse questionada, como aconteceu na região da Criméia, disputada entre Ucrânia e Rússia neste mesmo período.

Cinco anos depois, em 2019, o país nórdico tornou-se uma referência em educação midiática, ocupando o primeiro lugar no ranking que mede o combate à desinformação. O índice Media Literacy Index, avaliado pelo Open Society Institute de Sofia, apontou a Finlândia entre os 35 países mais resilientes à influência de boatos e notícias falsas. Dinamarca, Holanda e Suécia são os três colocados imediatamente depois.

“É claro que é sempre bastante raso ranquear sistemas de ensino e comparar países com dimensões geográficas, socioeconômicas e culturais diferentes. Por outro lado, é importante conhecer iniciativas que demonstram evidências e resultados, especialmente a longo prazo como na Finlândia. Educação de qualidade, imprensa livre e conscientização sobre a desinformação são elementos fundamentais para uma democracia forte, dentro e fora das escolas”, escreve Mariana Mandelli, coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta, em artigo para a Folha de São Paulo.

Pensamento crítico interdisciplinar 

No ano de 2016, a Finlândia aprovou um currículo nacional — muito semelhante à proposta da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) no Brasil — que estabelece o pensamento crítico e a alfabetização em diversas plataformas como componentes centrais. A ideia é que as escolas trabalhem educação midiática de maneira transversal e interdisciplinar.

Localizada na capital finlandesa Helsinque, a escola estatal French-Finnish School inicia o letramento midiático a partir dos seis anos de idade. Ao mesmo tempo que os estudantes aprendem sobre a estrutura de uma notícia falsa, também entendem como essa distorção pode se refletir nas estatísticas, nas imagens manipuladas e no rumo da história geopolítica do mundo.

Na maior parte das vezes, esse aprendizado vem por meio de projetos, que incentivam os estudantes a colocar a mão na massa e investigar uma fake news. Dessa forma, desenvolvem competências que os preparam para fazer esse exercício em situações cotidianas, e também propagar esse conhecimento para seus familiares e demais membros da comunidade.

“O que queremos que nossos alunos façam é que antes de curtirem ou compartilharem nas redes sociais, eles pensem duas vezes. Quem escreveu isso? Onde foi publicado? Posso encontrar as mesmas informações em outra fonte?”, explica o diretor Kari Kivinen, em entrevista para a CNN Estados Unidos.

Kivinen também foi secretário geral do Observatório Euipo (Escritório de Propriedade Intelectual da União Europeia), trabalhando em projetos de extensão educacional no continente europeu.“O que temos desenvolvido aqui – combinando a verificação de fatos com o pensamento crítico e a alfabetização do eleitor – é algo necessário e que tem despertado interesse em muitos outros lugares fora da Finlândia”, concluiu.

Combate à notícias falsas no Brasil 

No Brasil, o debate sobre educação midiática é mais recente. Segundo estudo realizado pela empresa global de cibersegurança Kaspersky, 62% dos brasileiros não sabem reconhecer uma notícia falsa. Ainda assim, as diretrizes apontadas pela BNCC incluem caminhos e possibilidades para reverter esse cenário.

Componentes como cultura digital e o campo jornalístico-midiático são contemplados como competências essenciais para os desafios encontrados por crianças e jovens do século XXI. Ambos incluem práticas pedagógicas que incentivam a cidadania digital, diferenciação de gêneros midiáticos, ética e responsabilidade informacional.

“Tudo isso deve, é claro, contar com apoio das redes de ensino, que devem atuar na formação dos professores e no fornecimento de recursos e materiais que permitam o trabalho pedagógico correspondente ao que demanda a BNCC”, apontou Mariana Mandelli.

Projetos como o EducaMídia, do Instituto Palavra Aberta, auxiliam e capacitam educadores para engajá-los neste comprometimento com o letramento midiático. Com apoio do Google.org, a iniciativa capacita professores e centraliza recursos como planos de aula e materiais didáticos alinhados com a Base. Tanto o acesso aos conteúdos quanto a formação são gratuitos.


Outras Notícias

Tecnologias assistivas na educação: o que gestores e professores precisam saber

14/04/2026

Tecnologias assistivas na educação: o que gestores e professores precisam saber

Confira 10 ferramentas gratuitas e acessíveis que podem transformar a rotina escolar de milhões de estudantes com deficiência matriculados na rede pública

IA na educação: como a inteligência artificial pode se tornar aliada da aprendizagem

06/04/2026

IA na educação: como a inteligência artificial pode se tornar aliada da aprendizagem

Relatório da OCDE reforça que o uso pedagógico intencional da IA é essencial para fortalecer a aprendizagem e evitar que a tecnologia se torne apenas um atalho para respostas prontas

Tecnologias educacionais: 10 aplicativos gratuitos para usar em sala de aula

30/03/2026

Tecnologias educacionais: 10 aplicativos gratuitos para usar em sala de aula

Com intencionalidade pedagógica, ferramentas digitais gratuitas podem fortalecer o aprendizado, promover o protagonismo estudantil e desenvolver competências digitais essenciais

Lia Glaz: inclusão digital vai além do acesso e é chave para a equidade na educação

27/03/2026

Lia Glaz: inclusão digital vai além do acesso e é chave para a equidade na educação

No Dia Nacional da Inclusão Digital, a diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo reforça que a equidade na aprendizagem depende da integração entre currículo, formação docente e infraestrutura

Como a tecnologia fortalece a solidariedade e a cidadania nas escolas

19/03/2026

Como a tecnologia fortalece a solidariedade e a cidadania nas escolas

Projetos solidários potencializados pela cultura digital desenvolvem competências socioemocionais, promovem inclusão, estreitam vínculos comunitários e incentivam uma cultura de cidadania ativa

Jogos de tabuleiro podem melhorar em até 76% o desempenho em matemática

13/03/2026

Jogos de tabuleiro podem melhorar em até 76% o desempenho em matemática

Pesquisa internacional mostra que apenas 10 minutos de brincadeira com números já fortalecem habilidades matemáticas nos anos iniciais — abordagem que também dialoga com soluções de tecnologia educacional