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Para garantir a segurança alimentar, cozinhas, restaurantes e hortas comunitárias têm encontrado caminhos dentro das comunidades com soluções coletivas

#Voluntariado

A imagem mostra a horta comunitária de Paraisópolis, já com muitos vegetais e hortaliças para serem colhidas.

Em 2021, o Mapa da Fome voltou a incluir o Brasil entre os países que concentram 5% da população em condição de insegurança alimentar. Mais de 125 milhões de brasileiros (59,6%) estão enfrentando desde a diminuição na quantidade de alimentos até a falta de acesso a eles.

Ao todo, 19 milhões de pessoas passam pela crise mais grave: a fome. O último dado foi apontado pelo estudo da Rede Penssan, que levou em consideração as cinco regiões brasileiras e fez o levantamento em dezembro de 2020. Segundo a pesquisa, apenas 44% dos domicílios no país estão em situação de insegurança alimentar, grande parte deles concentrados na região Sul e Sudeste.

“Nós figuramos entre as 10 maiores economias do mundo, mas também entre os países mais desiguais. Temos estrutura para avançar políticas públicas para erradicação da fome e da miséria, mas para isso precisamos voltar a fazer um pacto nacional de não aceitação da condição de insegurança alimentar”, afirma Daniel Balaban, representante do Brasil no Programa Mundial de Alimentos, que recebeu o prêmio Nobel da Paz 2020.

Entre esses milhões de cidadãos que lidam com a fome todos os dias está Igor Lana, morador da ocupação Terra Nossa, na periferia de Belo Horizonte (MG). Ele já viveu nas ruas e conheceu de perto a dureza dos dias passados de barriga vazia. Sua motivação para ajudar começou há três anos, antes mesmo da crise sanitária chegar ao Brasil. Nessa época, ele tinha acabado de sair de uma clínica de reabilitação, onde se recuperou da dependência química, intensificada pela morte do filho de 17 anos.

Ele e sua companheira Marlei Oliveira se mudaram para a ocupação depois de ela ser despejada de onde morava. “Passávamos dificuldades muito antes da pandemia. As pessoas moram em barracos de madeira, não tem botijão, nem fogão. Entendi que a comunidade precisava de ajuda. O pouco que tinha, eu dividia. E diante de tanta dor, nasceu o amor”, descreve o voluntário.

Para poder ajudar moradores de rua, o mineiro de 41 anos trabalhou como porteiro, faxineiro e prestador de serviços em eventos. O salário que recebia era investido em comida, cobertores, roupas e kits de higiene. Em 2020, foi dispensado dos trabalhos, mas não desistiu de ajudar, dessa vez com o valor do auxílio emergencial.

“Eu não tinha nada, apenas a convicção de que se conseguisse 50 pães e uma garrafa de café com leite, seria possível diminuir a fome de muita gente”, conta.

A partir de uma vaquinha virtual, arrecadou recursos para construir uma cozinha em casa e garantir a distribuição de marmitas gratuitas na comunidade. Das 7h às 15h, de segunda a sexta-feira, famílias da área fazem fila em frente à casa de Igor para receber café da manhã e almoço. Duas vezes por semana, ele e a equipe de voluntários descem ao asfalto para entregá-las no centro da cidade.

A partir desse movimento e por meio de ações conjuntas com outras organizações locais e centros religiosos, ele criou o Projeto Social Igor Lana, em junho do ano passado, para ampliar a cozinha a fim de garantir que ninguém da comunidade seja deixado para trás. Os recipientes para as marmitas, os ingredientes e o gás são angariados por meio de doações, que podem ser feitas em dinheiro e até em itens de supermercado.

Mais do que alimentar, esta espécie de restaurante comunitário também oferece um espaço para transformar vidas. Por causa da crise econômica, muitas pessoas da ocupação perderam seus empregos e decidiram se voluntariar para manter a iniciativa em funcionamento. Janaina Santos de Paula é uma delas. Há mais de um ano, a moradora cozinha para fazer as marmitas e destaca como recompensas os amigos que fez e o propósito que a afastou da desesperança.

“É muito gostoso trabalhar aqui. Depois que a cozinha fecha, ficamos conversando, trocando ideias e pensando em maneiras de ajudar mais. Isso faz com que a gente conheça melhor as pessoas e suas necessidades. Tem gente que vem não só por causa da comida, mas pelo acolhimento. Comigo foi assim. E acabei ficando”, relata a voluntária.

Plantando soluções coletivas 

As iniciativas comunitárias têm muito a ensinar sobre a prática de soluções coletivas para combater a fome. Um exemplo de articulação é o projeto Agro Favela, que implementou hortas comunitárias – espaços coletivos, cultivados por pessoas que geralmente moram nas redondezas ou estão agrupadas em associação – em Paraisópolis, São Paulo, e tem como meta  alcançar outras mil favelas pelo Brasil.

A proposta foi idealizada pelo G10 das Favelas — bloco composto por líderes e empreendedores sociais das dez maiores favelas do país — em parceria com o Instituto Stop Hunger e a empresa Sodexo. O objetivo não é apenas alimentar e nutrir a população dos territórios, mas também conscientizar sobre o desperdício e gerar condições para que as famílias possam ser autônomas na produção de alimentos.

“Assim como as cozinhas comunitárias, as hortas têm gerado impacto positivo, promovendo a boa alimentação e, consequentemente, auxiliando o aumento da imunidade nas comunidades. Com essas ações, nós temos transformado a vida das pessoas, oferecendo comida ou insumos para que possam fazer seus próprios alimentos”, diz Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis e coordenador nacional do G10 Favelas.

Inaugurada em outubro de 2020, a horta de Paraisópolis tem um total de 900 m² e cultiva, em média, 60 espécies de hortaliças e frutas. Neste ano, foram colhidas 2.721 hortaliças. A horta também contribuiu para o abastecimento do projeto Mãos de Maria, que distribui mais de 5 mil marmitas diariamente para a comunidade.

Ao todo, 133 mulheres da comunidade se cadastraram para receber treinamentos e materiais para fazer o plantio em suas casas. “Temos realizado oficinas de plantio de hortaliças, promovendo conhecimento e oferecendo insumos para que os moradores possam cultivar os alimentos em suas casas e gerar renda”, completa Gilson Rodrigues.

A maior favela de São Paulo, Heliópolis, é a segunda comunidade a implementar o projeto. Com cerca de 200 mil habitantes, a horta comunitária da região conta com sistema hidropônico e 19 metros de parede produtiva. A capacidade de produção é de 750 plantas por ciclo. Por lá, a iniciativa segue empoderando mulheres para que possam contribuir com a produção familiar de alimentos.

Como as iniciativas comunitárias estão ajudando a combater a fome no Brasil
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