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Saiba o que é ensino híbrido, como pode ser aplicado em diferentes realidades e os desafios a serem superados em sua utilização no retorno às aulas presenciais

#Educação#EnsinoHíbrido#VoltaàsAulas

O avanço da Covid-19 intensificou a necessidade de pensar novas formas de aprendizagem. No Brasil, ainda enfrentamos os efeitos agudos da pandemia. Mas as redes de ensino, após quase um ano de atividades remotas, estão em fase de planejamento para a retomada gradual das aulas presenciais. Nesse contexto, o ensino híbrido tem sido considerado por muitos uma possível solução pedagógica para a retomada. Mas como funciona esse modelo?

Nessa modalidade, on-line e o presencial se complementam, com foco em proporcionar uma experiência integrada de aprendizagem, em que o aluno esteja no centro do processo.

“Quando a gente fala em ensino híbrido, consideramos que os estudantes aprendem de forma diferente e as estratégias que vamos trabalhar com eles devem respeitar essas diferenças”, explica Lilian Bacich, diretora da Tríade Educacional.

A pesquisadora Dênia Falcão de Bittencourt, especialista em inovação educacional, afirma que o processo do ensino híbrido também está relacionado com o desenvolvimento integral dos jovens. “A educação repete a vida e a nossa vida está cada dia mais hibridizada”, conta.

Para entender como aplicar o ensino híbrido em sala de aula, suas caraterísticas e os modelos possíveis, é preciso compreender primeiro como ele se diferencia do ensino remoto, presencial e EAD.

Entenda os conceitos

Ensino presencial: Modalidade de ensino mais tradicional. O conteúdo do curso é exibido em sala de aula, onde os alunos e professores se reúnem todos os dias.

Ensino remoto: As aulas são transmitidas ao vivo no mesmo dia e horários em que seriam as presenciais. São aulas síncronas. Podem ser gravadas, mas o objetivo é manter o mesmo conteúdo e a mesma dinâmica do ensino presencial.

Ensino a Distância (EAD): As aulas são gravadas e disponibilizadas na plataforma da instituição. São aulas assíncronas. Estudantes podem assistir ao conteúdo quando quiserem, de acordo com sua disponibilidade de rotina. As dúvidas podem ser esclarecidas via e-mail, mensagem ou fóruns com um tutor.

Ensino Híbrido: Há a mescla entre o ensino remoto e o presencial de forma contínua: um complementando o outro. Isto possibilita personalização do ensino para atender melhor às necessidades dos estudantes. O aluno se torna o protagonista da aprendizagem, e o papel do professor não é mais o de transmissor, mas sim de mediador de conhecimento.

Fontes de referência: Aprendendo Sempre, Nova Escola e Tríade

Para Fernando Mello Trevisani, pesquisador e consultor educacional, os diferentes modelos de ensino híbrido podem ser adaptados em diferentes realidades brasileiras. “Existem os modelos sustentados, que conservam as características das escolas como as conhecemos, com divisão de alunos em turmas, faixas etárias, salas de aula, currículo, dentre outras características, exigindo menos mudanças na realidade escolar, e os modelos disruptivos, que rompem com algumas destas características, modificando-as bastante”, explica.

Segundo Trevisani, essas definições continuam valendo independente do cenário de pandemia. “Em um município em que os alunos possam ir dia sim, dia não às escolas, o modelo sustentado de laboratório rotacional talvez seja o mais adequado pode inspirar práticas e dar ideias para os professores trabalharem, pois nele o professor divide a turma em dois, e metade faz atividades com recursos digitais e a outra faz uma tarefa mediada pelo professor”.

Neste caso o momento com mediação pode ser presencial e o momento com o recurso digital pode ser feito em casa, de modo mais autônomo. “Como não temos todos os alunos no presencial de uma vez, não consideramos ensino híbrido de fato, mas sim uma prática inspirada neste modelo de ensino híbrido”, complementa o especialista.

Lilian Bacchi, no entanto, acredita que os modelos disruptivos são alinhados à realidade atual. “Quando a gente fala no virtual aprimorado, ou no virtual enriquecido, que é um modelo disruptivo, ele atualmente é o que mais funciona”.

MODELOS SUSTENTADOS:

Rotação por estações: Os estudantes são organizados em grupos – as estações de aprendizagem – para desenvolverem diferentes atividades. Os alunos se revezam nas estações, enquanto o professor atua como um mediador e intervém nos grupos que mais precisam de auxílio.

Laboratório rotacional: Os alunos são divididos em dois grupos que realizam atividades simultaneamente, uma com mediação direta do professor em sala de aula e outra com mediação da tecnologia. Os grupos trocam de espaço após finalizar a tarefa.

Sala de aula invertida: O professor envia o conteúdo previamente para o aluno com o tema que será abordado em sala. A ideia é que o aluno absorva o conteúdo pelo meio virtual e, ao chegar na aula presencial, já esteja ciente do assunto a ser desenvolvido. Assim, a sala se torna o local de interação professor-aluno, para sanar dúvidas e construir atividades em grupo.

MODELOS DISRUPTIVOS

Rotação individual: Modelo semelhante ao de rotação por estações, com a diferença de os alunos terem roteiros individuais elaborados pelo professor e fazerem rotações seguindo esses roteiros personalizados. Este modelo é bem aplicado em escolas que recebem alunos com diferentes níveis de aprendizagem.

Modelo Flex: Neste modelo o cronograma de aulas é muito personalizado e fluido. De acordo com o roteiro entregue pelo professor, o aluno realiza as atividades propostas com apoio presencial quando necessário. Há também atividades como instrução em pequenos grupos, projetos em grupo e aulas individuais.

À la carte: O estudante tem papel de destaque e se responsabiliza pela organização do seu estudo. Ele escolhe as matérias de acordo com a sua preferência e os objetivos gerais que pretende atingir. Tem a ajuda do professor e a aprendizagem ocorre no momento e local mais adequados. Pelo menos uma disciplina é ofertada online.

Modelo virtual enriquecido: A presença diária na escola não é obrigatória. O aluno tem todas as disciplinas ofertadas on-line e vai para a escola uma ou duas vezes por semana, para realizar projetos e debater o que foi visto virtualmente.

Fontes de referência: Aprendendo Sempre, Nova Escola e Tríade.

Lilian ressalta que o ensino híbrido requer atividades presenciais em sala de aula e por isso não é possível incorporá-lo ao ensino remoto. “É possível, no entanto, exercitar modelos e estratégias que são características do ensino híbrido. Podemos para fazer uma sala de aula invertida no modelo remoto, ou fazer rotação por estações com os alunos pelo Zoom. Podemos testar essas metodologias, mas o ensino híbrido, enquanto base teórica, depende da presença física do aluno em sala”, afirma.

Fernando Mello Trevisani pontua que o ensino híbrido pressupõe a utilização de tecnologias digitais pelo professor, para que este consiga visualizar, coletar e analisar dados sobre as aprendizagens dos alunos de forma mais simples e precisa. “Baseado nesses dados, o professor irá, na aula presencial, modificar a experiência de aprendizagem dos estudantes, visando a personalização de ensino”.

Transição

Cinco anos antes da pandemia, o livro “Ensino Híbrido: Personalização e Tecnologia na Educação” demonstrava que a modalidade pode se adequar às diferentes realidades brasileiras, ao apresentar a experiência de professores da rede pública e privada em quatro Estados do país.

“Mostramos que aspectos fundamentais que às vezes são compreendidos como limitadores na verdade não são, como, por exemplo, a utilização de recursos digitais. A gente não precisa de um recurso digital por aluno, isso é uma impressão errada que as pessoas têm sobre a proposta de ensino híbrido”, conta Fernando.

Ele pontua que não existe receita pronta para a transição do ensino remoto para o ensino híbrido. “É preciso considerar cada contexto. Quantos alunos voltarão? Quais modelos a escola consegue implementar? Quais tecnologias elas têm? É possível reunir todo mundo em um momento síncrono para fazer um debate? É preciso analisar o cenário completo”, informa.

Além disso, os especialistas apontam que desenhar um modelo de ensino híbrido adequado a cada realidade depende muito de como o ensino remoto foi aplicado no ano passado e de que maneira os conteúdos chegaram até os estudantes, o que varia muito de uma instituição para outra. Algumas escolas enviaram materiais impressos, outras desenvolveram programas em vídeo, enquanto outras utilizaram o WhatsApp, dentre muitas possibilidades.

No entanto, apesar das diferenças, todos esses cenários têm um ponto em comum: a partir do momento que o estudante entra em contato com o professor presencialmente, como este recolhe informações sobre a aprendizagem? “A personalização do ensino híbrido está intimamente relacionada a essa avaliação”, informa Fernando.

A rede municipal de Ponta Grossa (PA) está adotando o Ensino Híbrido para o volta às aulas. “Eles desenharam uma proposta de retorno que está relacionada com a sala de aula invertida”, diz Lilian. Na semana em que os alunos ficam em casa, estes assistem o conteúdo através de programas na TV ou via YouTube, e no momento presencial a classe debate o aprendizado.

Desafios

Um dos principais desafios para implementar este novo modelo é quebrar a lógica de ensino centrada no professor.

Neste caso, um ponto de atenção necessário é a formação docente, para que o educador consiga implementar o ensino híbrido na prática. “Temos de mostrar aos professores que existem formas diferentes de ensinar, mas não julgá-los por fazer educação expositiva”, alerta Fernando. “Essa formação precisa ser oferecida a partir das necessidades do docente: oferecer novos recursos digitais, ressignificar as concepções de como o aluno aprende, como analisar dados e personalizar o ensino”.

Assim, o ensino híbrido requer formação de professores, um bom planejamento e o desenvolvimento da própria cultura do aprendiz.

É possível aplicar o ensino híbrido nos anos iniciais?

Trabalhar o ensino híbrido com as crianças dos anos iniciais também é possível, desde que fazendo as adaptações necessárias. “Algo que não funciona com essa faixa etária, por exemplo, é acompanhar aulas ao vivo”, conta Lilian. Ela sugere então o modelo sala de aula invertida aplicado de forma mais simples, “provocando” o estudante a fazer pesquisas e investigações. Os conhecimentos adquiridos poderão ser aplicados durante as atividades presenciais.

Ensino híbrido veio para ficar

Para Trevisani, o ensino híbrido não é modismo e veio para ficar, e a pandemia apenas ressaltou isso. “A tendência é que qualquer modelo que seja ativo, em que o aluno construa o seu conhecimento e participe de forma ativa, não tendo apenas aulas expositivas, seja tendência daqui pra frente”.

Lilian também aposta na modalidade, pois já é possível notar a mudança na cultura escolar na proposta do novo Ensino Médio, na qual o estudante é incentivado a fazer suas escolhas e desenvolver os seus itinerários formativos. É preciso então trabalhar com o desenvolvimento da autonomia desde os anos iniciais, e o ensino híbrido é uma ferramenta para tal.

A pesquisadora Dênia Falcão aponta que a importância de não seguir um modelo em que todos os alunos aprendam da mesma forma, típica do ensino tradicional. “Em um modelo de personalização você adapta o ensino de acordo com os interesses, dificuldades e necessidades, acompanhando as demandas de um mundo cada vez mais imprevisível.”

O ensino híbrido se mostra então como uma boa ferramenta para acompanhar mudanças que já estão sendo impostas pela realidade. Afinal, como pondera Lilian Bacich, o estudante de hoje já não tem mais uma postura passiva, é alguém mais ativo, que está em contato com meios digitais, e que busca incessantemente por informações.

Como fazer a transição do ensino remoto para o ensino híbrido no planejamento da volta às aulas?
Como fazer a transição do ensino remoto para o ensino híbrido no planejamento da volta às aulas?