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01.02.2022
Tempo de leitura: 6 minutos

Educador indígena atua para expandir o conhecimento e a educação ao povo baniwa

Juvêncio Cardoso potencializou a metodologia de educação indígena para o seu povo, depois de vivenciar o desafio de aprender nas escolas tradicionais da cidade. Conheça a sua história!

Imagem mostra o educador Juvêncio Cardoso. Ele está fazendo uma selfie e ao fundo é possível ver diversos alunos sentados em sala de aula.

As experiências educacionais de Juvêncio Cardoso, 36, vivenciadas por ele ainda na primeira infância, proporcionaram aprendizados para além dos conteúdos das apostilas e das disciplinas ensinadas em sala de aula. Juvêncio é da etnia baniwa, natural da aldeia Santa Isabel, localizada no extremo noroeste do Brasil. Há 1000 km de Manaus (AM), o professor trabalha por uma educação indígena e intercultural.

Ele é mestre em Ciências Ambientais, educador e conhecido por ajudar a transformar a educação indígena na região do Alto Rio Negro, sendo uma das lideranças  mais importantes do povo baniwa. Entretanto, até os nove anos de idade, ele foi alfabetizado na comunidade em que nasceu.

“Lembro de ir aprendendo com a cultura dos meus pais e na relação com a natureza. Eu ficava ‘nas costas’ da minha mãe e via as atividades cotidianas. Assim, quando comecei a andar, acompanhava meu pai na pesca, na caça e colheita de frutas. Assim, fui aprendendo a me comunicar com nossa língua. A gente tem o nosso modo tradicional de educação”, conta.

O primeiro contato com a educação escolarizada ocorreu quando ele tinha 10 anos. Em uma das poucas escolas próximas de sua casa, ele enfrentou sua primeira barreira para aprender. Afinal, percebeu que o único professor não falava a língua baniwa.

“Ainda me recordo do medo que tive naquele primeiro dia. Não tinha coragem de chegar no professor e dizer que não entendia nada. Queria desistir. Mas por incentivo do meu pai, fui me acostumando com o ambiente escolar e aprendendo um pouco do português. Aos poucos, foram chegando outros professores baniwa”, explica.

De acordo com Juvêncio, a partir daí foi formada a primeira geração de professores baniwa da região.

O despertar para a carreira de professor indígena

Imagem mostra o professor Juvêncio com um grupo de 10 anos. Eles estão ao ar livre, reunidos em frente a uma árvore. O professor parece estar dizendo algo aos estudantes

A aldeia de Santa Isabel fica a cerca de três dias de viagem fluvial de São Gabriel – a cidade mais próxima. Estima-se que 90% da população do município seja indígena, com 700 aldeias, 23 povos e 18 línguas faladas. Além disso, São Gabriel conta com a maior oferta de Ensino Fundamental, quando comparado ao contexto da aldeia.

Nesse sentido, Juvêncio teve a ideia de colaborar com as escolas de Santa Isabel quando cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental na Escola Intercultural Baniwa e Koripaco Pamáali –  a primeira criada pela comunidade baniwa. Dessa forma, seu objetivo era evitar que outras crianças e jovens indígenas passassem pelos mesmos desafios de linguagem que ele enfrentou.

“Primeiramente, comecei a participar de projetos comunitários sobre piscicultura e avicultura realizados na escola. A partir daí, desenvolvi habilidades nessas áreas técnicas, até concluir o Ensino Fundamental, quando eu tinha 15 anos”, recorda.

Assim que se formou, Juvêncio foi convidado pela escola para continuar trabalhando nessas áreas técnicas. Como resultado, ele passou a gostar ainda mais dos projetos e a querer atuar área de Educação

“Vi que era necessário contribuir com os alunos e com os próprios professores para aplicar o conhecimento da região para a nossa comunidade. Por isso decidi me tornar professor indígena”, declara.

Educação Indígena e reconhecimento

A Escola Intercultural Baniwa e Koripaco Pamáali é resultado da mobilização coletiva. Assim sendo, o espaço foi projetado e construído pela comunidade com a proposta de alfabetização e formação que levasse em consideração a rotina das crianças e jovens nas aldeias. Bem como as histórias e tradições passadas de geração em geração.

“Foi na Escola Pamáali que entendi o quanto nossa cultura é rica e devemos preservá-la. Afinal, mantendo nossas tradições e buscando o conhecimento, a educação pode dialogar com o homem branco e nos proteger com os aprendizados”.

Juvêncio assumiu a coordenação da escola quando tinha 25 anos. Depois, criou uma rede de escolas baniwa, inicialmente com 20 escolas e cerca de 200 estudantes. Atualmente, a rede conta com 65 escolas de Ensino Fundamental e duas de Ensino Médio, somando mais de 2.500 estudantes.

“A gente fez uma grande mobilização envolvendo as demais escolas da região. A gente queria multiplicar a experiência que já estava dando certo na escola Pamaáli, que foi nosso primeiro projeto e, àquela altura, já havia se tornado escola-modelo”, destaca.

A Escola Pamáali foi reconhecida pelo MEC, em 2016, como instituição de referência em inovação e criatividade em Educação Básica no Brasil. Por sua metodologia de ensino, que inclui pesquisa, conhecimento tradicional, conhecimentos científicos e acadêmicos, as tradições dos povos baniwa ganharam destaque.

Ao mesmo tempo, é uma das 100 instituições educacionais brasileiras que integram o projeto Escola 2030. O programa global busca criar parâmetros para a avaliação da aprendizagem com base na prática da educação integral e transformadora.

Educação indígena é proteção

Juvêncio conta que é desejo dos indígenas mais antigos que as futuras gerações estejam preparadas e protegidas por meio da educação.

“A gente quer que eles usem o conhecimento para defender seu território. Mas não abandonamos os aprendizados da nossa terra.  Nosso modo tradicional de educação também é importante para a nossa defesa”, diz.

Ele concluiu o Ensino Médio após os 20 anos de idade, em um curso supletivo feito em Manaus.

“Fiz licenciatura sobre a nossa cultura para os professores indígenas e pós-graduação em Educação Escolar Indígena. Esse conhecimento é necessário para a sociedade dar valor ao nosso povo. Assim é ser baniwa. É manter sua tradição e cultura, vivendo o melhor do seu território. Mas também é estar preparado para outro contexto social, seja para viver na cidade, ter carro, viajar de avião e usar a tecnologia a favor dos nossos”, relata.

Juvêncio se considera educador ativista e busca inspiração no pai, que sempre o incentivou a romper barreiras.

“Ele não teve uma vida escolarizada, mas protagonizou minha saída e minha volta da aldeia, regada de muito conhecimento. Eu sempre quis, a partir desse movimento, mostrar que podemos ser sempre mais”, conclui.


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