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Professora Maria Teresa Lugo, pesquisadora e consultora internacional em educação, comunicação e tecnologias digitais, defende a importância de políticas públicas e da parceria com o setor privado como caminho para a inclusão digital

#NovoEnsinoMédio#TecnologiaDigital

Imagem mostra a professora Maria Teresa Lugo consultora internacional sobre tecnologias digitais educacionais.

A necessidade de isolamento social provocada pela pandemia de Covid-19 forçou gestores de educação e educadores a buscar estratégias de ensino e aprendizagem mediadas por tecnologias educacionais digitais.  Nos anos de 2020 e 2021, 90% das escolas públicas brasileiras adotaram algum nível de ensino remoto, algo que aconteceu de forma semelhante em toda a América Latina. No entanto, experiências referenciais de uso de tecnologias digitais na educação já existem na América Latina desde os primeiros anos do século 21.

Quais são essas experiências, que riscos e oportunidades as tecnologias digitais representam para o mundo da educação latino-americana são alguns dos temas tratados nesta entrevista com a professora Maria Teresa Lugo. Ela dirige o Centro de Políticas Públicas em Educação, Comunicação e Tecnologias Digitais da Universidade Nacional de Quilmes, na Argentina, onde leciona e pesquisa há 22 anos. Durante 15 anos, foi coordenadora da área de Projetos de TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação) e Educação do Instituto Internacional de Planejamento Educacional da UNESCO.

 

Fundação Telefônica: O avanço das tecnologias educacionais digitais na América Latina aponta para dois caminhos distintos: por um lado, pode ser uma oportunidade de pensar uma educação com mais equidade. Por outro lado, pode desencadear um aprofundamento ainda maior das desigualdades entre estudantes de classes mais privilegiadas e conectadas e de grupos mais vulneráveis e desconectados. Como essas possibilidades se apresentam na América Latina?

Maria Teresa Lugo: Primeiro é importante ter clareza que quando falamos de América Latina, estamos falando de desigualdade não apenas no que diz respeito à tecnologia, mas de acesso a muitos tipos de direitos. Estamos falando em uma profunda desigualdade entre quem vive no centro e na periferia das grandes cidades; mas também entre quem vive nas grandes cidades e em centros urbanos menores e mais afastados ou, mais ainda, em relação a quem vive em zonas rurais. É deste lugar que estamos falando. Então, quando a pandemia chega em 2020, evidencia-se que mais da metade da população da América Latina não tem acesso à internet, ou tem de forma precária. E essa metade é aquela que também já tinha menos acesso a todos os tipos de direitos sociais (trabalho, renda, educação, saúde) e que, com a pandemia, sofreu uma deterioração alarmante das suas condições materiais e sociais.

No que diz respeito às tecnologias digitais na educação, sem a promoção de políticas públicas de inclusão digital, o que vai acontecer é que as meninas e os meninos que já se encontram excluídos vão ficar ainda mais excluídos. Neste sentido, as tecnologias tendem a ampliar essa desigualdade. Para conter e mudar isso, são necessárias políticas públicas, inclusive parcerias entre o poder público e o setor privado, que atuem sobre todas essas camadas de exclusão envolvidas.

Fundação Telefônica: E quais seriam as ações necessárias destas políticas públicas no que se refere a tecnologias educacionais digitais na América Latina?

Maria Teresa Lugo: Primeiro, devem ser projetos de adoção de tecnologias digitais nas escolas que estejam alinhados e articulados com as prioridades educativas. Muito já se falou do acesso à internet, das plataformas, dos recursos digitais e dos aplicativos. No entanto, parece-me que agora é o momento de revisar e avaliar esta oferta do ecossistema de tecnologia para a educação. Qual é a qualidade dessas soluções tecnológicas? Quais são as reais necessidades da escola e quais plataformas realmente as atendem? Quais são realmente relevantes para o ensino e a aprendizagem?

Quando falamos em desigualdade digital, muitas vezes nos focamos na conectividade, porque efetivamente é uma das questões mais importantes que precisamos resolver. Porém, o acesso a dispositivos e dispositivos de qualidade [bons computadores] é igualmente fundamental. Além disso, é importante garantir que conectividade e dispositivo não estejam acessíveis apenas nos ambientes escolares, mas também nas casas dos estudantes. Daí a importância de garantir políticas públicas e parcerias público-privadas de distribuição de dispositivos aos grupos mais pobres e vulneráveis.

Crédito: Cecilia de la Paz

Fundação Telefônica: Que experiências já existentes na América Latina podem servir de referência para políticas públicas voltadas para essas questões?

Maria Teresa Lugo: É importante dizer que há muito tempo já se produzem interessantes experiências envolvendo tecnologias digitais educacionais na América Latina. Portanto, isso não é algo novo por aqui e nem se iniciou durante a pandemia. Quero começar com uma experiência do Brasil, que existe há mais de 15 anos, e que me parece que hoje pode nos dar alguns caminhos interessantes. Estou falando do Centro de Mídias da Educação do Amazonas, que possibilita que estudantes de regiões distantes interajam nas suas escolas por meio de monitor e internet [via satélite] com professores que ministram as aulas desde Manaus. Este é um modelo muito rico, muito consistente e que sem dúvida pode ser referência para outros países.

Na Argentina, há cerca de 12 anos, começou um programa parecido, o “Escolas secundárias mediadas por TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação)”, voltado para atender estudantes de regiões rurais distantes.

Outra experiência que me parece interessante são as Redes de Tutoria do México, onde é possível o estudante escolher um tema de interesse e esse tema ser aprofundado numa relação quase personalizada entre professor e aluno. Parece-me que é um método que funciona bem quando se trabalha por projeto, com um tema gerador de interesse.

No Uruguai, há mais de 15 anos, temos o Ceibal, que é o centro de inovação educacional com tecnologias digitais do país. Começou com a proposta de distribuir um notebook para cada aluno e cada professor das escolas públicas do Uruguai, mas hoje é uma plataforma que desenvolve estudos, faz formação e oferece recursos digitais educacionais. Pode-se dizer que é uma plataforma digital que se adapta constantemente às necessidades dos estudantes e dos professores.

Entenda os desafios para o uso de tecnologias educacionais digitais na América Latina
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