Saltar para o menu de navegação
Saltar para o menu de acessibilidade
Saltar para os conteúdos
Saltar para o rodapé
Apostamos na força transformadora da educação, conectando pessoas ao conhecimento.

Para além de uma habilidade de comunicação, essa competência também representa uma oportunidade de ressignificar experiências coletivas, altamente necessária em tempos de Covid-19

#Voluntariado

A imagem mostra duas pessoas sentadas, uma de frente a outra. De costas, usando uma camiseta preta está a empreendedora social Beatriz Diniz e a sua frente, uma mulher de blusa branca e um crachá pendurado no pescoço onde se lê o nome Fernanda, em vermelho. Atrás dela, há um banner com o nome do projeto Cruzando Histórias.

O ato de escutar vai muito além de simplesmente ouvir. Trata-se de um exercício de humildade e humanidade, onde a conexão entre os indivíduos e o coletivo se constrói. Demonstrar interesse genuíno no que alguém tem a dizer, sem julgamentos, está entre os princípios de uma escuta ativa. Mas para além de uma ferramenta de comunicação, essa habilidade socioemocional também representa uma potente possibilidade de transformação.

A empreendedora social Beatriz Diniz, 34, descobriu essa potência na prática. Há quatro anos, a então profissional de Recursos Humanos assistiu a uma reportagem sobre desemprego, que trouxe dados e gráficos sobre a situação do país. Mas foi ao ouvir a história de uma das personagens entrevistadas no Centro de São Paulo — mãe, desempregada, com uma ordem de despejo — que a escuta se transformou em ação.

“Mesmo sem ter experienciado aquela dor, me senti responsável. Tentei encontrá-la de todas as formas possíveis, mas não consegui. Então decidi sair pelas ruas com uma lousa, onde estava escrito: ‘Está sem trabalho?’. Muitas pessoas vieram falar comigo e esses relatos se transformaram em histórias postadas em uma página no Facebook”, explica.

O nome da página, Cruzando Histórias, foi escolhido para representar o objetivo da iniciativa: humanizar os currículos e conectar pessoas que precisam trabalhar às que precisam contratar. Essa ideia inicial evoluiu para um negócio social, estruturado a partir de três pilares: acolhimento, desenvolvimento e conexão à oportunidades. Palestras, oficinas e mentorias são oferecidas gratuitamente a quem procura por recolocação, e vendidas às empresas que buscam melhorar o ambiente de trabalho.

Não é à toa que os dois carros-chefes da organização são o programa de voluntariado corporativo, voltado às empresas, e a mentoria de carreira EscutAção. A ideia é reforçar uma contratação mais focada nas vivências e experiências dos colaboradores. Toda a equipe do Cruzando Histórias é voluntária e treinada em comunicação não violenta, escuta ativa e empática.

“A escuta ativa tem esse poder transformador para quem está escutando e também para quem está sendo escutado. É sobre se colocar a favor do outro, sentir, entender e acompanhá-lo na solução de problemas. Todas as relações, sejam elas profissionais ou pessoais, ganham quando se estabelece esse princípio de colaboração e empatia”, conclui a empreendedora.

Escutando soluções 

Seja no ambiente corporativo, na educação ou no voluntariado, a escuta ativa potencializa a resolução de problemas, a comunicação e o trabalho em equipe. Todas essas  competências são essenciais para responder aos desafios do século XXI, evidenciados pela pandemia de coronavírus.

“Em meio a um contexto sem precedentes, nossas formas de escutar e acolher são decisivas, desde já, para o que estamos semeando para o futuro de nossa sociedade. Cabe a nós termos ouvido de escutar, corações de sentir e cérebros para fazer todas as reflexões coletivas que nosso tempo tem nos exigido”, afirma Danilo Cesar, historiador, produtor cultural e um dos idealizadores da Rede Apoio Covid.

Logo no início da crise sanitária no Brasil, em março de 2020, Danilo se deparou com pessoas próximas perdendo familiares e entes queridos. Isso fez com que ele se mobilizasse para encontrar profissionais qualificados, de diversas áreas, que pudessem sistematizar informações, orientações e serviços de acolhimento para elaborar o luto coletivo que se apresenta como principal característica da atualidade.

“Este movimento de escuta atenta para as histórias individuais e coletivas precisa ocorrer   em conjunto para fortalecer a sociedade em seu enfrentamento do luto. Pessoas que estão conectadas e amparadas têm mais chances de cocriar narrativas em prol de objetivos para o bem comum, algo imprescindível para que um país enfrente obstáculos de forma empática e justa”, explica a psicóloga Fabiana Casarini, especialista em Storytelling e uma das voluntárias da Rede.

O coletivo funciona como uma coalizão independente da sociedade civil, sem fins lucrativos e sem qualquer direcionamento político-partidário ou ideológico. O objetivo é oferecer possibilidades de ressignificar o luto em decorrência da Covid-19 por meio de oficinas de escrita dirigida para enlutados, rodas de conversa e rodas de afetos, diretamente ligadas à arte e à cultura.

Narrativas com novo significado 

A partir da escuta também se constroem narrativas. Se escutar pode curar, a memória pode transformar as perspectivas de futuro. Pensando em mais uma forma de usar a empatia para ressignificar a experiência coletiva, o Museu da Pessoa (MuPe) se uniu à Rede Apoio Covid para preservar e registrar histórias de vida na pandemia.

“O processo de luto diz respeito à expressão de sentimentos, sentidos, crenças, visões de mundo, sendo suas manifestações, portanto, um direito e o seu estudo essencial para nos aproximarmos de uma das mais importantes dimensões da cultura humana”, reflete Elisiana Castro, especialista em patrimônio cultural funerário e coordenadora das iniciativas memoriais da Rede.

Os projetos Memorial das Vítimas do COVID-19 no BrasilTotens Memoriais Pró-Saúde tem como objetivo capacitar voluntários para o registro de histórias dos familiares das vítimas e também de memórias cotidianas sobre a pandemia. Para o museólogo e diretor do MuPe, Lucas Lara, criar produtos culturais a partir destas narrativas é uma forma de gerar reflexões mais profundas e acessíveis sobre a construção da História.

“Para além da importância histórico-cultural, os relatos são valiosos instrumentos de conexão entre as pessoas e possibilitam uma relação empática. Escutar o outro é o primeiro passo para transformar o modo como vemos o mundo. Mas essa escuta demanda esforço, já que é um processo ativo de estar aberto ao outro. Ao exercitarmos essa habilidade, mostramos ao outro que sua história tem valor e merece ser preservada”, conclui.

Escuta ativa: uma ferramenta de transformação social
Escuta ativa: uma ferramenta de transformação social