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Novo Ensino Médio: primeiro itinerário de formação técnica e profissional em Ciência de Dados. Saiba mais

O projeto Máquina do Tempo passou por quatro escolas de Fortaleza e resultou em 1200 cartas ao longo de vinte e um anos. Saiba como foi o reencontro!

#Educação#Educadores#Estudantes

O professor Antero Macedo posa com as caixas de isopor repletas de cartas que seus ex-alunos escreveram na adolescência. Ele é um senhor branco, de cabelos grisalhos e veste uma camisa vermelha de botões.

“Vocês acreditam em viagens no tempo?” A partir desta pergunta, o professor Antero Macedo, 65, despertou a curiosidade dos alunos para um novo projeto. “E se eu disser que tenho uma Máquina do Tempo?”, acrescentou o professor de História.

O ano era 2000 e a proposta era simples: escrever cartas para serem abertas no futuro. Diante desse convite, cerca de três gerações de estudantes participaram do projeto em quatro escolas diferentes de Fortaleza (CE).

Nesse meio tempo, o professor guardou as mensagens de “seus meninos” — como carinhosamente os chama — em 14 caixas de isopor. Vinte e um anos depois, Antero reuniu as turmas como prometido.

O primeiro evento aconteceu no Colégio Monsenhor Joviniano Barreto, em dezembro de 2021. Desde então, o professor acompanha os estudantes por um grupo de WhatsApp e marca horários para que cada um deles vá até sua casa receber as cartas.

“Alguns nem se lembravam que tinham feito a cápsula do tempo. Já outros nunca deixaram de me perguntar sobre ela. Seja como for, esse momento promove um encontro entre os adolescentes que foram e os adultos que se tornaram”, conta Antero.

Embora sejam emocionantes, os encontros nem sempre trazem memórias felizes. Há casos em que familiares e amigos vão à procura de cartas no lugar de estudantes que faleceram. Também há aqueles que não encontraram suas cartas entre os 1200 envelopes.

“Uma das caixas se perdeu durante a mudança, outra acabou inundada por uma goteira. Em alguns casos, o tempo não foi gentil com meus meninos. Todavia, entendo que isso também faz parte do processo de crescimento”, reflete Antero.

foto da carta escrita pela estudante Raquel Aquino no passado
Carta escrita pela estudante Raquel Aquino no passado

Expectativas versus Realidade

Assim como acontece na História, a evolução foi gradual na trajetória dos jovens. “É encantador vê-los surpreendidos com a perspectiva que tinham sobre o futuro aos treze anos de idade”, diz Antero.

É o caso de Mariana Ribeiro, 20, que participou da atividade em 2014. Na época, a jovem considerava o ano de 2020 muito distante.

“A princípio, tive medo de enfrentar o passado. Eu achei que ia estar casada, com filhos. Dediquei a carta a amigos que já não tenho mais contato. Mas quando finalmente li as mensagens me senti privilegiada por ter tido essa oportunidade”, compartilha Mariana.

Atualmente, a jovem estuda Psicologia e diz que a Máquina do Tempo representou um divisor de águas em sua vida. A experiência foi tão marcante que ela decidiu escrever mais uma carta para abrir em 2030.

“Ter consciência da nossa evolução como ser humano é um aprendizado tão importante quanto qualquer conteúdo do currículo escolar. O Antero queria que nós pudéssemos medir o quanto caminhamos. Na minha opinião, isto é educação para cidadania”, reflete.

Máquina do Tempo: escrevendo projetos de vida

Sob o mesmo ponto de vista, a estudante de Jornalismo Raquel Aquino define a proposta do professor Antero como transformadora. “Com essa cápsula do tempo ele fez a gente pensar no nosso projeto de vida. Isso me motivou a ir atrás desses objetivos”, reflete.

Nesse sentido, a jovem de 21 anos esperou ansiosa pelo momento de reabrir a carta. O evento foi adiado por um ano, devido a pandemia de coronavírus. Ainda assim, Raquel continuou a lembrar os amigos de infância sobre a atividade.

O professor Antero reencontra estudante Raquel Aquino para a entrega da carta. Os dois estão sorrindo, com os rostos próximos. Raquel é branca, tem os cabelos vermelhos e está de blusa preta e uma máscara de proteção individual. Ele é um senhor branco, de cabelos grisalhos e veste uma camisa de listras finas preta e branca com detalhes de flores azuis.
O professor Antero reencontra estudante Raquel Aquino para a entrega da carta. Após o primeiro evento, os encontros passaram a ser feitos individualmente, na casa de Antero.

“Queria saber quais partes da Raquel que fui ainda continuam comigo. O mais marcante foi descobrir que cumpri o objetivo mais importante da minha carta: ter uma relação próxima com meus pais. Na época, eles passavam por um processo de separação”, relembra a jovem.

Por falar em proximidade, Raquel reforça que nunca perdeu o contato com o professor Antero Macedo. Ao longo dos anos, teve a oportunidade de retribuir todo carinho que recebeu. “Professores como ele fazem a gente querer tornar os sonhos realidade”, concluiu.

Encontro marcado para 2030

Quando viaja no tempo, Antero relembra as origens humildes. Criado com oito irmãos por uma mãe solo, teve de se afastar dos estudos durante um período de sua vida. Ainda assim, afirma com determinação: “Não tenho do que reclamar, me realizei enquanto educador”.

Sendo assim, traz para a sala de aula toda a gratidão que tem pela educação. Gosto de dizer que sou constantemente conquistado pelos meus alunos”, compartilha Antero. Afinal, para o professor, respeito não é algo que se impõe.

Para se aproximar dos jovens, ele adapta os conteúdos de maneira que faça sentido para a realidade deles. “Se eu parar de perturbar o juízo dessa garotada, eu envelheço”, brinca o educador.

Depois de receber muitos pedidos de estudantes e familiares, Antero pretende fazer mais um último ano de Máquina do Tempo. As turmas do Ensino Médio do Colégio Monsenhor Joviniano Barreto já têm um encontro marcado com o professor em 2030.

Máquina do Tempo: estudantes recebem cartas escritas na adolescência
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