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O cientista brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua perspectiva cidadã dos territórios, deixou reflexões sobre a importância do pensamento crítico e soluções múltiplas para os problemas globais

#Educação

“O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir”. Ao dizer esta frase, na década de 1980,  o geógrafo e cientista brasileiro Milton Santos (1926-2001) não poderia prever as profundas consequências provocadas pela pandemia do coronavírus, mas já alertava sobre a necessidade de novos modelos e soluções na construção de sociedades sustentáveis.

O mesmo alerta fez sobre as desigualdades sociais e sobre os perigos de apostar em um modelo único para  solucionar os múltiplos problemas globais. Muito à frente de seu tempo, Milton Santos elevou a Geografia dos anos 1980 e 1990 a um patamar multidisciplinar, usando os campos da economia, sociologia e política para orientar as reflexões feitas nos mais de 40 livros publicados por ele em vida.

Por seu trabalho notável também nas áreas do jornalismo e da educação, consagrou-se como um dos mais renomados intelectuais, reconhecido por suas contribuições tanto nacional quanto internacionalmente. No ano de 2021, o cientista completaria 95 anos e seu legado continua atual. Nina Santos, neta de Milton, o define da seguinte forma:

“Acho que a principal herança de Milton Santos é justamente ressaltar a importância do questionar, do pensar diferente, de defender o seu ponto de vista mesmo que contra uma maioria que questiona a sua posição.”, disse Nina, em entrevista ao Brasil de Fato.

Cidadão do mundo, pesquisador local

Em 1996, dois anos após Milton Santos receber o prêmio Vautrin Lud, o Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP organizou um encontro internacional para homenageá-lo.O nome escolhido para o evento foi “O mundo do cidadão, cidadão do mundo” , para reforçar a conexão entre as obras do intelectual brasileiro e a construção acadêmica de uma Geografia que considera os aspectos da cidadania na formação dos territórios globais.

“O geógrafo é, antes de tudo, um filósofo, e os filósofos são otimistas, porque diante deles está a infinidade”, era assim que Milton definia a ciência para a qual dedicou a vida. Ainda que tenha se destacado internacionalmente e vivido durante muitos anos fora do país, ele nunca perdeu o Brasil de vista em suas análises.

Os primeiros livros e teses escritos por ele tinham como perspectiva o território da Bahia, onde nasceu, depois o do Brasil e, em seguida, abordou as áreas dos países latino-americanos. Ao fundar o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, logo após concluir o doutorado na França, o cientista materializou o compromisso de retornar o conhecimento adquirido para a pesquisa e o desenvolvimento de soluções locais.

Pensamento crítico 

Justamente por defender a flexibilidade de alternativas que levam em consideração as particularidades e desafios dos territórios, Milton era um grande crítico da globalização, processo de exportação de um modelo único que interliga economia, política, sociedade e cultura a nível planetário e que em meados dos anos 1990 era a perspectiva aceita pela maior parte dos intelectuais do Brasil e do mundo.

Ainda que em minoria, o geógrafo manteve seu posicionamento contra o processo, chamando a atenção para as desigualdades sociais que seriam potencializadas pela forma como a globalização era posta em prática até então.

O pensamento crítico de Milton Santos permeou todo seu trabalho, com temas como  a urbanização desigual dos países do Terceiro Mundo, a importância de democratizar o ensino superior brasileiro e o racismo estrutural, que se opunha à ideia de cidadania e direitos humanos.

Trecho de uma das últimas entrevistas dada por Milton Santos, para o documentário O mundo global visto do lado de cá, do cineasta Silvio Tendler.

Pioneiro da educação midiática 

Aplicando em sala de aula
O plano de aula A Geopolítica contemporânea, disponibilizado pela Nova Escola, traz as reflexões de Milton Santos para a sala de aula, voltado para a faixa etária do 9º ano do Ensino Fundamental.

Por ter atuado como jornalista durante um período de sua vida, Milton Santos enxergava a comunicação midiática como parte fundamental da construção de uma sociedade. Embora não tenha chegado a presenciar os debates recentes sobre o aumento da circulação de notícias falsas, era crítico em relação a forma como as informações eram veiculadas e interpretadas.

“Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação”, escreveu o intelectual em sua obra Por uma outra Globalização, de 2000. Para ele, era preciso ter senso crítico ao interpretar fatos, pesando os interesses por trás de cada informação recebida.

A educação midiática, considerada uma das competências fundamentais para o século XXI, tem como premissa construir essa leitura crítica, a partir de ferramentas que permitirão identificar o contexto de uma mensagem, o gênero textual a qual pertence e a motivação por trás de determinada informação. A ideia é que este letramento seja trabalhado desde cedo, sobretudo com crianças e jovens.

Muito além da Geografia: o que Milton Santos representa para o mundo hoje?
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