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Conheça mais sobre o educador e saiba como a instituição tem acolhido os alunos em um momento de muitos desafios para a educação de jovens e adultos durante a pandemia

#Educação#Educadores#Inclusão

O educador Diego Elias Santana Duarte, de 36 anos, é coordenador-geral do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) do bairro do Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo. Ele trabalha na escola há seis anos e, nos últimos quatro anos, assumiu a coordenação da instituição.

O CIEJA Campo Limpo é referência em inclusão e diversidade. A grade curricular é construída de forma coletiva e tem suas portas permanentemente abertas para a comunidade escolar. Com suas práticas pedagógicas inovadoras, o CIEJA integrou o Movimento de Inovação na Educação (apoiado pela Fundação Telefônica Vivo), e foi reconhecida pela UNESCO como modelo mundial em educação.

Filho de pai mineiro e mãe baiana, Diego nasceu na periferia paulistana. Graduado em Geografia pela Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), mestre pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorando pela Unesp, ele participou do estudo Observatório do Professor, realizado pelo Instituto Península, no primeiro semestre de 2019.

O docente compartilhou conosco a sua trajetória na educação e contou como foi feito o acolhimento aos estudantes e docentes durante a pandemia e sobre as dificuldades e particularidades dos alunos do EJA.

 

Conte um pouco da sua trajetória

Eu sou o filho mais novo de uma família mineira e de uma família baiana que se encontraram na periferia de São Paulo. De tanto ouvir as histórias das paisagens dos dois estados, a minha construção de perspectiva de vida se deu através do território.

As minhas relações geográficas também foram construídas a partir da periferia. Na época da Universidade, surgiu a literatura marginal, com o livro “Capão Pecado“, de Ferréz, e filmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens. Eu via a geografia muito presente nestas produções e achava tudo muito interessante. Em seguida, me apaixonei pelo Movimento dos Saraus (encontros que se disseminaram nas periferias da cidade, e que reúnem jovens e adultos para declamar poesias).Terminei a faculdade (de Geografia, pela Unesp, na cidade de Presidente Prudente) e voltei para São Paulo já dando aula em uma escola estadual próxima da minha casa.

Os saraus e esta educação que vem da comunidade, que ultrapassa o ambiente escolar, me chamam atenção. Por isso, fiz o mestrado (também em Geografia na USP) e estudei os movimentos culturais a partir do sarau. Depois, cheguei ao CIEJA, que é um lugar que identifico a combinação de referências e conhecimentos e vejo a educação além dos muros da escola.

Como o CIEJA Campo Limpo entra na sua história? 

É importante contar um pouco da história da escola. O CIEJA nasce da educação de jovens e adultos, mas principalmente do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova). Criado por Paulo Freire, quando era Secretário Municipal de Educação (1989 – 1991), o movimento surgiu com uma proposta de reunir Estado e Organizações da Sociedade Civil para combater o analfabetismo desses grupos.

Com o governo posterior, o Mova foi extinto e a EJA passou a ser ofertada nos então criados Centros Municipais de Ensino Supletivo (CEMES). O ensino era apostilado, semipresencial, e não havia uma sede ou prédio próprio para o projeto.

Em 2002, a nomenclatura de CEMES passa a ser CIEJA, que é o Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos. Na cidade de São Paulo, são 16 CIEJAs onde os alunos estudam em três turnos diferentes (manhã, tarde e noite). O mais conhecido é a unidade do Campo Limpo, que ganhou prêmios internacionais e nacionais e se destacou. Isso tudo foi por causa da Dona Eda Luiz, que ficou 20 anos na direção e construiu uma educação compartilhada entre todos os atores da comunidade escolar. Quando ela se aposentou em 2018, eu assumi a direção geral do CIEJA.

 

Qual a particularidade da Educação de Jovens e Adultos durante a pandemia? Como a instituição foi impactada? 

A educação de jovens e adultos é o limiar, é a última chance que a pessoa tem de voltar a acessar a sociedade pelo mundo das letras e dos números. Não há dados oficiais, mas acredito que durante a pandemia essas são as pessoas que mais estão sofrendo. Elas têm vínculos financeiros muito frágeis na sociedade. Entre os alunos, estão aqueles que não têm carteira de trabalho assinada, não têm renda fixa, casa própria, aqueles que são precarizados do ponto de vista da vida e que não têm seus direitos garantidos. Nós lidamos diretamente com pessoas destes perfis. Temos um público de alta vulnerabilidade social e metade dos nossos estudantes têm comorbidades.

No ano de 2020, o CIEJA funcionou quase como um braço de assistência social, com entregas de cestas básicas. Fizemos vaquinhas e conseguimos arrecadar as cestas para distribuir. A prefeitura, institucionalmente, também trouxe cestas básicas e cartão merenda, porque distribui para outras escolas e nós também fizemos esta distribuição.

Este ano, nós estamos engatinhando com o sistema Ensino Híbrido, para conseguirmos acessar o maior número de alunos. Estamos trocando o pneu com o carro andando. Todos estamos aprendendo a lidar com os meios tecnológicos.

A escola tem estreito vínculo com a comunidade e decide coletivamente a maioria dos assuntos. Como isto se dá em relação ao currículo?

Algo que facilita bastante é o nosso entendimento do currículo. Não se trata apenas de uma quantidade de conteúdos. A gente ressignificou e o currículo é aquilo que ajuda a pessoa a desvendar o mundo do trabalho, a vida e a ciência. São ensinamentos para usar nos momentos que mais precisa. Na pandemia, a educação e a leitura contribuem para fazer com que as pessoas consigam se cadastrar no CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) ou que procurem uma assistência psicológica, por exemplo. Sempre questionamos “para que você usa o seu conhecimento”?

 

Você fala bastante sobre a importância do acolhimento no processo educativo. Como isto está se dando durante a pandemia? 

O vínculo e o acolhimento são importantes para o ser humano como um todo. Precisamos nos entender e precisamos ter empatia com o outro. No CIEJA, trabalhamos isso há 23 anos: como criar empatia pelo maior número de pessoas e ajudá-las. Por isso, que o acolhimento acaba sendo bem forte. É uma característica nossa.

Na pandemia, acolhemos para manter o vínculo com a instituição de ensino, mas também porque entendemos que a função da educação, neste momento, é estender o braço desta maneira. É uma função não só do servidor, ou do professor, mas também é uma função humanitária.

 

E como você percebe os professores neste novo contexto? 

Está sendo difícil não só para os professores, mas também para todos aqueles que trabalham diretamente com outras pessoas, como motoristas de ônibus e cobradores. Eu fico imaginando como deve ser a pessoa não ter condição de trabalhar e ainda assim precisar trabalhar.

Falando do ambiente da escola, nós, enquanto grupo gestor, precisávamos ficar na escola. Para os professores e alunos, o trabalho a distância está garantido. O grupo gestor ficou, em número reduzido, na escola. Não só por causa das atividades do prédio da escola, mas também pela entrega de cestas básicas.

Psicologicamente, tem um desgaste muito grande para os professores. No início do ano, eu trouxe três psicólogas para conversar com o grupo de docentes sobre o retorno, tendo em vista que eles estavam há um ano em casa. Se você está este tempo em casa, e precisa obrigatoriamente lidar com o outro, é uma situação tensa. Não é fácil obviamente e eu não tenho uma resposta fácil, não tenho uma solução.

Há um grande sentimento de impotência. Há um conjunto de variáveis que você não controla. Na época do frio, você sabe que vai ser frio. Agora quando tem uma pandemia que você não consegue controlar, você tem um sentimento de impotência, sendo surpreendido o tempo inteiro.

 

O CIEJA Campo Limpo sempre foi referência em inovação educativa. Atualmente, como vocês estão se relacionando com o tema da inovação? 

A gente tem que tomar muito cuidado quando falamos de inovação e educação, para não vincular a ideia da inovação como uma questão tecnológica. O tablet ou computador é apenas um aparelho tecnológico, mas ele não resolve problemas estruturais.

No ano de 2020, eu chamei profissionais do Paraguai, de Portugal, de Angola e de outros lugares do Brasil para fazer uma formação com os professores. Falamos sobre o que eles estavam passando e como o local onde moravam estava enfrentando a pandemia. Chamei este projeto de “Diálogos da Pandemia”. Por que não fazíamos isso antes? Porque nós éramos vinculados ao presencial.

Nós temos agora esta maior produção de informação. O que não podemos esbarrar é na produção em excesso da informação desvinculada com a realidade ou em uma inovação tecnológica em que você joga produtos tecnológicos, mas eles não chegam a todos. Aprendizagem não é acumular informação, é trabalhar com esta informação.

“Na pandemia, acolhemos para manter o vínculo”, afirma Diego Elias, coordenador-geral do CIEJA Campo Limpo
“Na pandemia, acolhemos para manter o vínculo”, afirma Diego Elias, coordenador-geral do CIEJA Campo Limpo