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Foto: Camila de Souza

Antonio Carlos Gomes da Costa é pedagogo e participou da comissão de redação do Estatuto da Criança e do Adolescente

A adolescência é um período da vida humana marcado por um status ambíguo entre a infância e a idade adulta. O adolescente vive o não-mais em relação à criança que foi, e o ainda não em relação ao adulto que será. Este é, porém, um período crucial do desenvolvimento do ser humano. É na adolescência que a pessoa é levada a defrontar-se com questões fundamentais como: plasmar sua identidade pessoal e social e forjar seu projeto de vida.
Este é um processo em que o jovem se procura e se experimenta, se confunde e, algumas vezes, se perde. É um momento difícil. Entretanto, com ajuda da família, da escola e de outros suportes disponíveis na comunidade, os adolescentes conseguem superá-lo com maior ou menor dificuldade.
Que dizer, todavia, dos jovens das camadas populares ante a esse desafio? Aqueles para quem escola é apenas uma lembrança ou – pela sua má qualidade – uma presença enfraquecida, incapaz de responder às suas verdadeiras necessidades e expectativas. Aqueles para quem a família já não é uma fonte de ajuda, mas, pelo contrário, um peso com o qual ele passa a ter a responsabilidade de arcar.
Como se dá a construção da identidade e a socialização desses jovens? À vulnerabilidade, resultante do abandono da escola ou de uma considerável defasagem idade/série, soma-se a fragilidade da família, a requerer seu ingresso precoce e despreparado – tanto em termos de escolarização, como de capacitação – num mundo do trabalho cada vez mais complexo, exigente e competitivo.

“Sobra para esses adolescentes o exercício de funções desqualificadas no mercado formal ou o trabalho informal, sub-remunerado, abusivo e explorador”

É claro que, nestas condições, o mais comum é que o trabalho encontrado seja bastante precário. O que sobra para esses adolescentes é o exercício de funções desqualificadas no mercado formal ou – o que é mais comum – o trabalho informal, sub-remunerado, abusivo e explorador.
Cláudia Jacinto (1995), da Rede Latino Americana de Educação e Trabalho, afirma que a construção da identidade social do adolescente no cotidiano passa por dois processos: um, biográfico, o outro, relacional.

O processo biográfico se constitui a partir da peripécia individual do jovem em sua relação com a família, a escola e o mercado de trabalho. Esse trajeto pessoal é que define, vamos dizer assim, a sua condição objetiva como ser social.

O processo relacional diz respeito à capacidade do adolescente de desempenhar os papéis, que dele se espera, nos diversos âmbitos da vida social e de, por meio dessa atuação, obter o reconhecimento por parte de si mesmo e pelos demais do seu valor como pessoa.

Família, escola e trabalho
Este trinômio emerge com ululante obviedade quando pensamos em dar respostas a estes jovens, seja por meio das políticas públicas ou da solidariedade social. Se observamos, porém, a trajetória das ações governamentais e os gestos solidários, que partem da sociedade, veremos que o óbvio não é tão óbvio assim. Na prática, é raríssimo encontrarmos iniciativas concretas, que articulem corretamente estas três dimensões essenciais de uma política para a juventude.

Os programas sociais, que atuam em face a essa questão, freqüentemente trabalham de costas para a escola, olhando a família pelo espelho retrovisor. A escola é considerada elitista, desfocada da realidade pessoal e social do educando, formalista, burocrática, fechada à articulação e à parceria com outros setores e tremendamente preconceituosa e defensiva em sua relação com os pobres mais pobres.

“Os programas sociais freqüentemente trabalham de costas para a escola, olhando a família pelo espelho retrovisor”

A família, por sua vez, é vista como quem já teve a sua chance de ajudar aquela vida a desenvolver-se e fracassou. Por isso, deve ser considerada sempre parte do problema e não parte da solução. O fato de ela depender, para subsistir, do trabalho de seus filhos, ainda em tenra idade, é visto como a prova cabal de sua desqualificação e da sua incapacidade.
É no contexto desta forma de enfocar a situação que se produz um certo tipo de resposta social perversa e irresponsável das políticas públicas e das entidades não-governamentais, no Brasil e em praticamente toda a América Latina. Em vez de ajudar a família, para a família ajudar o menino, vamos ajudar o menino, para que ele possa ajudar sua família. Essa maneira de ver, de entender e de agir inverteu a ordem natural das coisas e transformou o trabalho precoce, de problema, em solução.

Exclusão dos adolescentes

Quanto ao nosso adolescente vamos encontrá-lo imerso, por um lado, nas solicitações de uma mídia, que, a todo momento o coloca diante de apelos cada vez mais amplos, profundos e sutis ao consumo desenfreado de bens e serviços. Por outro, num contexto inibidor de oportunidades reais de inclusão, em que ele vê restringirem-se cada vez mais suas possibilidades de acesso aos objetos de um desejo que se universaliza.

É no interior desse quadro que vamos assistir ao (des)encaminhamento de um certo número de vidas ainda mau desabrochadas. Um número de jovens bem mais reduzido do que seria de se esperar acaba entrando em curso de colisão com a legalidade e a moralidade de uma sociedade, que parece não querer ou, então, se mostra inteiramente incapaz de incluí-los.

É assim que se delineia o itinerário da exclusão. Como a vulnerabilidade desses adolescentes não é, em razão da sua força e da sua vitalidade, evidente ao senso comum, o seu drama não toca a sensibilidade e a consciência social da mesma forma que as negligências, abusos, abandonos e violências cometidas contra as crianças. A fragilidade desta etapa da vida é de outra natureza.

A ausência de alternativas concretas, que lhes permitam viabilizar-se como pessoas, trabalhadores e cidadãos, acaba levando o adolescente a murar-se no imediatismo, esse insaciável devorador de horizontes e na inconseqüência, a sua irmã siamesa. A partir daí, torna-se cada vez mais difícil o trabalho social e educativo junto a esses jovens. Agora já não é a simples reposição do que lhes foi sonegado que os levará ao caminho do normal crescimento de uma vida e de uma carreira. Aqui, a existência já está comprometida em níveis mais profundos.

A educação e a capacitação para o trabalho – todos sabemos disso quase por intuição – são os pilares básicos de qualquer iniciativa, tanto no sentido de evitar que os adolescentes cheguem a esta situação, como para, uma vez atingido esse patamar de degradação, retomar o caminho do normal desenvolvimento pessoal e social. Sem educação e sem uma perspectiva no mundo do trabalho, como poderá o jovem olhar sem medo para o futuro?

Por isso, é fundamental que escolas, entidades de formação profissional e empresas se unam para proporcionar às nossas juventudes populares – seja urbana ou rural – itinerários formativos capazes de assegurar ao nosso jovem ingresso no mundo do trabalho. Mais bem preparados, estes jovens poderão enfrentar os seus numerosos e crescentes desafios.

*Os textos publicados na área Colunistas são de responsabilidade dos autores e não exprimem necessariamente a visão do portal Pró-menino.

O jovem e o trabalho
O jovem e o trabalho