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Uma conversa franca com três educadoras que dividem as 24h do dia entre estudos, trabalho, atenção aos filhos e atividades pessoais.

#Educação#Educadores

Foto da professora Raquel Petersen com as filhas

Cerca de 80% dos 2,2 milhões de docentes que estão na Educação Básica são mulheres. Muitas dessas professoras também são mães e se viram isoladas em casa com dois trabalhos: o ensino remoto e o cuidado com a família. As duas funções acabaram se misturando durante o expediente, o que trouxe inúmeros desafios.

Neste Dia das Mães, conheça a história da Raquel, da Lígia e da Leopoldina. Três educadoras e mães de crianças em idade escolar. Elas contam como têm feito para equilibrar a vida profissional, a maternidade e afazeres pessoais neste período conturbado.

 

Humor para engajar os alunos 

Moradora de Macaé (RJ) e filha de professores, Raquel Petersen  escolheu o mesmo caminho dos pais. Mãe de três filhas, de 2, 6 e 8 anos, Raquel começou como professora, e aos poucos mudou o foco de sua atuação para Terapia Familiar, Neuropsicopedagogia e Psicanálise.

Atualmente trabalhando com orientação parental, ela também produz conteúdo pedagógico, e retornou às salas de aulas para lecionar inteligência socioemocional em todas as turmas de um colégio da cidade. “Eu tenho três filhas e três empregos”, brinca Raquel.

“O início da pandemia foi bastante desafiador. Eu estava muito tensa. Ficava reprimindo o tempo todo as crianças. Com o tempo, mudei de postura, o que fez o clima dentro de casa ficar mais leve”, conta.

Ao observar a filha de 8 anos, notou o quanto a menina se cansava com a rotina do estudo on-line. Então, resolveu usar do bom humor para engajar os alunos. “Me propus a ser uma pessoa engraçada, divertida. Quero sair dessa coisa maçante que tem sido o ensino remoto”, compartilha.

Foto da professora Raquel Petersen
Raquel Petersen

Mesmo conseguindo dividir as tarefas de casa com o marido, Raquel sentiu-se sobrecarregada. “Dentro de um contexto familiar, a sobrecarga vem pela necessidade de repetir os mesmos comandos: vai limpar o seu quarto, vai tomar banho. Eu me sentia muito mal, parecia que tudo o que eu fazia era equivocado.

Além da sobrecarga no âmbito familiar, ela também compartilha que enquanto docente precisa dar conta de notas, frequência dos alunos, conteúdos planejados e da pressão imposta pelos pais dos estudantes. “Tanto as crianças quanto os professores estão exaustos. Em determinado momento, eu, enquanto mãe e professora, não estava dando conta de ajudar a minha filha em suas atividades escolares”, lamenta.

Aos poucos a educadora conseguiu parar de se culpabilizar, priorizando aquilo o que era realmente importante. “Do que puder abrir mão para não surtar, eu abro. Só não abro mão das crianças e do meu trabalho”, ressalta.

Transformando a educação a partir da criança 

Leopoldina Maria Sanches, de 49 anos, é pedagoga e estudante de Psicopedagogia. Nascida em São Paulo (SP), passou parte da infância no estado do Maranhão. “Morei em uma casa de pau a pique. O acesso à escola era precário, então só aprendi a ler e escrever quando minha mãe fugiu do meu pai, porque ele a agredia”, relata.

Leopoldina ingressou na faculdade de pedagogia aos 32 anos, já com dois filhos, e nunca mais parou de estudar. ” A Sophia tem hoje 16 anos e cursa o segundo ano do Ensino Médio. Fernando, com 22 anos, estuda economia na Universidade Federal de Santa Maria (RS).

Com a pandemia a família viveu um período de difícil adaptação. Leopoldina acreditava que precisava dar conta de tudo dentro de casa. “No início as tarefas ficaram emaranhadas, misturadas com trabalho e faculdade. Foi estressante”.

“Com o tempo as coisas foram se ajeitando. Hoje tenho a liberdade de fazer caminhadas logo cedo, estudo de manhã e organizo as tarefas à tarde”, conta. “Como mãe aprendi a ouvir mais, a tentar dividir as tarefas de casa. Passei a cuidar do nosso lado espiritual diariamente, o que ajuda na nossa saúde física e mental”.

Foto da professora Leopoldina Maria Sanches
Leopoldina Maria Sanches

Como educadora, ainda não teve oportunidade de lecionar em escolas, mas tem dado aulas de reforço a crianças com dificuldade de aprendizado. Em 2021, perdeu o emprego e decidiu voltar a fazer cursos na área da Educação. “Essa parada brusca, nos fez repensar nossa vida, o que desejamos para cada um de nós”, pontua. Um dos cursos que realizou este ano foi o de Escrita Criativa na plataforma Escolas Conectadas. A iniciativa faz parte do ProFuturo, programa global de educação da Fundação Telefônica e da Fundação “la Caixa” que incentiva a formação a distância e o compartilhamento de conhecimento entre educadores.

Como trabalho final do curso, a educadora escreveu uma história protagonizada por sua filha. Ao longo da história, Sophia tem contato com as teorias de grandes educadoras, como Maria Montessori, Tizuko Kishimoto e Telma Weisz.

“Eu amei fazer o curso. Fazer esta atividade da Escrita Criativa me fez enxergar novamente que podemos transformar a educação a partir da criança, com a participação da família, da escola e da comunidade”, destaca Leopoldina.

 

Flexibilizando as convicções 

Lígia Freire, de 36 anos, é professora da Rede Municipal de São Paulo desde 2015, dedicando-se ao Ensino Fundamental I. Ela também é mãe do Vicente, de 4 anos, e madrasta da Iara, de 13.

Ela recorda que o início de 2020, com o fechamento das escolas e a adoção do ensino remoto, foi um período de trabalho muito mais duro do que o presencial. Os docentes tiveram que se adaptar ao novo formato de ensino, assim como estruturar a própria dinâmica de home office, que no caso dela é em um pequeno apartamento na capital paulista.

“Antes, nós já lidávamos com o trabalho fora e o trabalho doméstico, mas esses ambientes eram separados,”, conta ela. “Quando isso se fundiu no mesmo tempo e espaço, as coisas se sobrecarregam. O trabalho na escola se intensificou demais e o trabalho doméstico também. Agora é um constante lavar louça e fazer comida. É uma sobrecarga psicológica também, muito desgastante”, afirma.

Foto da professora Lígia Freire
Lígia Freire

Para dar conta dos afazeres profissionais, ela acorda bem cedo, antes do marido e das crianças. “É o momento em que estou mais tranquila e com mais foco”, explica.

Ela recebe as atividades do filho Vicente, que está na Educação Infantil, por e-mail. Com o marido, precisa dedicar tempo e disposição para essas tarefas. “Se para mim já é desafiador, fico imaginando as outras mães que não têm essa formação”.

O novo contexto também fez Lígia rever posicionamentos. Antes absolutamente contrária ao excesso de telas, hoje também as entende como aliadas. “Eu jamais imaginei que meu filho de 4 anos iria jogar videogame. Mas hoje ele faz contas de matemática no videogame que talvez ele não faria com atividades escolares. A gente vai flexibilizando nossas convicções também”, pontua.

Lígia acredita que o maior peso da carga mental vem da “contradição dos papéis”. “Como professora, sei a importância de termos o controle da pandemia para voltar presencial, mas como mãe, não vejo a hora de as escolas abrirem. Parece que há uma cisão entre os interesses dos pais e dos professores. Mas não. Estamos todos preocupados com o aprendizado das crianças, mas as decisões que a gente toma, de forma pragmática, parecem contrárias”, desabafa.

“Ser mãe na pandemia é viver a educação e a maternidade em seus diversos significados e na sua potência máxima. É uma eterna contradição entre o que a gente quer, e o que é possível, entre os nossos interesses privados e coletivos. É olhar para as crianças com a esperança de tempos melhores”, finaliza a professora.

Os desafios de professoras que são mães, durante a pandemia
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