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A Batalha do Conhecimento se revela capaz de transmitir informações e promover a aprendizagem entre os jovens da periferia. Saiba mais!

#Educação#Estudantes#Inclusão

Imagem mostra um jovem segurando um microfone. A imagem está bem próxima do microfone e da mão do jovem.

A cultura hip-hop – também conhecida como rap surgiu nas comunidades afro-americanas de Nova York, nos Estados Unidos, na década de 1970. A manifestação, que pode ser considerada uma forma de resistência da cultura negra e periférica, também atua diretamente no resgate e na autoestima de jovens privados de oportunidades. Atualmente, é considerada patrimônio cultural imaterial do estado do Rio de Janeiro, pela Lei 7837/10.

O hip-hop é um instrumento da luta popular, pois seus valores conversam com a juventude da periferia e com a classe trabalhadora, além de ser uma ferramenta estratégica de caráter formativo.

Por sua linguagem, popularidade e apelo entre os jovens, o compromisso do rap também vem sendo desenvolvido para a educação. Ele pode ser considerado uma importante ferramenta de aproximação dos jovens ao conhecimento e à cultura em sala de aula e eventos. Afinal, os versos improvisados estimulam a concentração, a oralidade, o vocabulário e a memória, além de transmitir valores como o respeito e união.

Uma batalha que incentiva o conhecimento 

Nesse contexto surge a Batalha do Conhecimento (BDC). O formato foi idealizado em 2007 por MC Marechal, rapper carioca e fundador do grupo de rap fluminense Quinto Andar. Ele também foi um dos artistas que participaram do festival Duloco 99, considerado o evento que estabeleceu a cultura hip-hop no Brasil, em 1999.

A vontade de MC Marechal era unir música com a transformação cultural proposta pelas raízes do hip-hop. A ideia do evento são batalhas de rimas temáticas, utilizando as palavras sugeridas pelo público em um quadro.

As rimas são feitas em até 40 segundos a partir das palavras sugeridas e podem abordar todo tipo de assunto, como educação, política, cultura e questões sociais. Muito além de versos, durante a batalha os rappers têm o desafio de desenvolver um raciocínio sobre o tema proposto, e a avaliação é feita pela plateia e jurados.

A Batalha do Conhecimento foi criada para contrapor as tradicionais batalhas de MCs, conhecidas como “batalhas de sangue”, em que a dinâmica consiste em atacar o rapper oponente com as palavras e habilidades enquanto rapper. Na BDC, o objetivo principal é trocar saberes, conforme explica MC Marechal em reportagem publicada pelo jornal Extra.

“Nas batalhas tradicionais, o improviso se limita a uma disputa. Na Batalha do Conhecimento há uma reflexão conjunta que constrói uma nova referência interna e externa, individual e coletiva. Como resultado, temos um banho de raciocínio lógico, rápido, criativo, somado à cultura brasileira e ao aprofundamento e à reflexão dos assuntos”, detalha.

Despertando a curiosidade dos jovens 

O evento passou a ser realizado no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2014, já que a BDC foi considerada uma ferramenta de integração de jovens da cidade. A iniciativa também buscava incluir a comunidade local no mundo das artes plásticas por meio de exposições, palestras e rodas de conversa.

O convite para a realização das batalhas no espaço partiu dos diretores do MAR, que perceberam a ligação de MC Marechal com os jovens e a periferia.

MC Estudante foi o grande vencedor da edição nacional da Batalha do Conhecimento, em 2015. Ele conheceu o formato por meio de amigos, mas acompanhava os eventos pelo Youtube. Para ele, os duelos são importantes para despertar a curiosidade dos ouvintes sobre as questões abordadas nas rimas.

“O hip-hop pode ser um estímulo quando fala sobre algo que a pessoa não conhece, aí ela pesquisa para entender. Acho que isso é uma forma de incentivar o jovem a estudar. Às vezes, quando faço minhas rimas de matéria escolar, a pessoa pode pensar ‘será que isso que ele tá falando é certo?’. Então, ela vai lá e pesquisa”.

Antes de participar das Batalhas, o rapper rimava nos vagões dos trens para complementar a renda da família. Resolveu seguir seu sonho após ser impedido de assumir uma vaga na Escola Preparatória para Cadetes da Aeronáutica (Epcar), devido a problemas de visão. Com o prêmio que recebeu por vencer a Batalha do Conhecimento, investiu em equipamentos para a gravação de seus materiais.

O carioca, que também é radialista, celebra hoje a projeção nacional do seu trabalho e destaca a importância do hip-hop na formação multidisciplinar dos jovens.“O rap vem para educar, não diretamente nas matérias escolares, mas educar na forma de pensar, os hábitos e os costumes”, conclui.

 

Soluções educacionais não formais 

O índice de evasão escolar no Brasil é preocupante. Segundo pesquisa do DataFolha, 10,8% dos alunos do Ensino Médio abandonaram as salas de aula em 2020. Os principais motivos foram questões financeiras e a dificuldade de acesso às aulas remotas por causa da pandemia.

Em sua maioria, os alunos que estão deixando as salas de aula são jovens negros de baixa renda, moradores de comunidades carentes. Para tentar controlar esse movimento e incentivar os jovens a estarem nas escolas, desde os anos 1990 são realizados projetos semelhantes à proposta da Batalha do Conhecimento.

Em 2019, o grupo de rap Racionais MCs participou do “RAPensando a Educação”, projeto idealizado em 1992 pela Secretaria Municipal da Educação de São Paulo. Na iniciativa, integrantes do grupo visitavam as escolas públicas para discutir, com alunos e professores, temas relacionados à pobreza, violência, tráfico de drogas, entre outros.

MC Marechal – o criador da Batalha do Conhecimento – também é autor de outras ações culturais. Uma delas é o Projeto Livrar, que distribui livros gratuitamente em shows do rapper e passou a fazer parte da Batalha do Conhecimento.

Já os slams, como são conhecidas as batalhas de poesia falada que vinham se espalhando por todo o Brasil antes da pandemia, também possuem um grande potencial de trocas de conhecimentos e experiências.

As competições são realizadas em espaços públicos e consistem em declamações, de até três minutos, sobre temas diversos, que vão de traumas a amores, passando por questões políticas e situações cotidianas. Entretanto, alguns educadores têm utilizado o gênero poético durante o Ensino Remoto, incentivando a autoria dos alunos.

Rap também é compromisso com a educação
Rap também é compromisso com a educação