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O educador José Pacheco conversa sobre necessidade de atualizar os modelos pedagógicos tradicionais

Nuca atrás de nuca; a lousa na ponta da sala, as carteiras enfileiradas, o giz soltando pó branco sob a mão firme do professor ou professora. Uma das falas do documentário sobre educação Quando Sinto que Já Sei é a proposição perspicaz da educadora Simone André: se um médico do século 20 entrasse num hospital do século 21, não poderia exercer seu ofício, tamanha a magnitude das mudanças. Mas se um professor também pudesse viajar do passado para o presente, ele se sentiria confortável e saberia como agir, pois as escolas ainda seguem modelos parecidíssimos com os originais.

O sistema prussiano de educação, que se espalhou pela Europa no século 18 e depois pelo o mundo, foi criado no ápice de repressão às manifestações populares que estouravam por todo continente, pós-Revolução Francesa; era, portanto, um modelo de contenção. Ele congelou e hierarquizou o papel do professor. Quando ele assume a dianteira de um espaço de educação, seja na escola ou na universidade, posiciona-se à frente simbólica e fisicamente dos alunos, assumindo um lugar absoluto do saber, saber esse irrefutável, pouco aberto à contestação.

No Brasil, as escolas em sua maioria seguem modelos herdados da colonização europeia e dos jesuítas, primeiros responsáveis pela educação formal no país. Caminha-se num ritmo de diminuição do analfabetismo e também de aumento de crianças e adolescentes matriculados na escola. Mas a evasão desses mesmos alunos, bem como o analfabetismo funcional após a conclusão dos estudos – segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) divulgada pelo IBGE em 2013, 17,8% dos brasileiros são capazes de identificar palavras, mas não podem interpretar textos – traz à tona o problema da calcificação dos modelos pedagógicos brasileiros.

O professor ensina como aprendeu. Se no magistério ele já é exposto a um modelo de aula em que só se escuta, em que é exposto a todo tipo de teoria inovadora, mas não a vê em prática, ele tem dificuldade de aplicar isso no seu cotidiano profissional. Para o educador português José Pacheco, o apego com tradições educacionais exportadas e a pouca humanização do professor são alguns dos responsáveis pelos índices educacionais preocupantes no Brasil: “As escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. Precisamos compreender que pessoas são aquelas com quem partilhamos os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras), cuidar do professor para que ele se veja na dignidade de pessoa humana e veja também outros professores como pessoas”.

José sempre teve esperança de que as escolas se tornassem um lugar de indivíduos felizes e generosos com o saber. Com essa premissa em mente, ele dirigiu por mais de 30 anos a Escola da Ponte, em Negrelos, Portugal. Referência pedagógica no mundo todo, ela se diferencia pela dissolução de séries e de matérias, e por oferecer autonomia aos alunos para que se juntem, pesquisem e elaborem projetos transdisciplinares de aprendizado. Lá, o papel do professor é outro: ele se torna um orientador, atento às necessidades de seus alunos e disposto a aprender com eles.

Para que isso se torne possível, o docente tem que se reeducar e se recriar, e o apoio e colaboração de outros educadores nessa formação conjunta é fundamental: “Ainda há quem creia que a teoria pode preceder a prática e encha a cabeça do formando de tralha cognitiva, ingenuamente acreditando que ele irá ‘aplicá-la’ na sala de aula, quando na verdade, ele deveria ser tomado como sujeito em transformação, no contexto de uma equipe”, diz o educador. Tanto na Escola da Ponte quanto em outros espaços de educação que a tem como referência, o professor abre sua mente para métodos ativos, descontruindo sua participação dentro da sala de aula.

José tem dedicado seu olhar atento e afetivo à realidade brasileira de ensino desde que deixou a direção da Escola da Ponte. Um dos locais onde desenvolve seu trabalho é o projeto Âncora, em Cotia, São Paulo. Essa comunidade de aprendizagem também aboliu as séries e os anos letivos, e os alunos e professores estão envolvidos em projetos de múltiplas disciplinas e de ação efetiva, tanto na vida dos que frequentam a escola como nas comunidades no entorno.

O Encontro de Educação, prática do projeto Âncora, é coordenado por José. Nele, educadores de diversas origens se reúnem para debater metodologias e experiências: “Nesse debate, a prática de Transformação Vivencial é facilitadora da necessária transformação, da reelaboração da nossa cultura pessoal e profissional. São muitos os profissionais que nos procuram e que vivenciam o nosso cotidiano, partindo diferentes do que eram quando aqui chegaram. Buscamos viabilizar a participação de todos os educadores interessados na prática, não distinguindo a sua origem. E fomentamos a criação de uma rede de escolas, que cooperem e sejam parceiras de outros roteiros de mudança”.

Um dos frutos dessa prática foi o curso online Fazendo a Ponte, que aconteceu em março desse ano. Nele, os professores dialogaram com José sobre desafios e futuros educacionais e planejaram sobre como aplicá-los em suas próprias realidades. O curso à distância e com horários livres de participação, é uma mostra de um futuro mais humanista na educação de professor para professor.

E se não se deve exportar modelos internacionais, o professor tem que ser reeducado a olhar para o próprio país e para a imensa gama de educadores que sempre desafiaram os moldes, entenderam os desafios próprios de território nacional e foram também tão esperançosos quanto o próprio José: “O Brasil dispõe de um espólio científico invejável. Entre muitos outros, que poderia citar, evoco: na psicologia, a escolanovista Helena Antipoff; na sociologia, o corajoso Florestan Fernandes; na medicina, a genial Nise da Silveira; na antropologia, o incontornável Darcy Ribeiro; na pedagogia, o profético Lauro de Oliveira Lima… São pedagogos ignorados, dado a síndrome de vira-lata, que afeta muitos professores brasileiros”.

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