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Créditos: Yuri Kiddo

Yuri Kiddo, da Cidade Escola Aprendiz

Nascido em Bruxelas, Jonathan Hannay cresceu na Inglaterra e veio ao Brasil em 1993 para terminar o último ano de sua licenciatura em antropologia na Universidade de São Paulo (USP). Desde então, Hannay começou a trabalhar como educador social com crianças de rua no centro da cidade, e co-fundou a Associação de Apoio à Criança em Risco (ACER Brasil), em Diadema, região do ABC paulista, município que o reconheceu como cidadão diademense, em 2012.

Tendo como missão “resgatar a dignidade de crianças e jovens promovendo a transformação do meio social”, a organização é reconhecida no município por sua atuação no combate pela erradicação do trabalho infantil e pelas atividades que estimulam o protagonismo juvenil e a participação de crianças e adolescentes na comunidade. Em 2011 o sociólogo foi condecorado, pela rainha Elizabeth II,  com o título de MBE (membro da ordem do império britânico), em reconhecimento do seu trabalho ao longo de mais de 18 anos dedicado às crianças e jovens no Brasil.

Em entrevista à Promenino, Hannay relata, a partir de estudos e experiências, os principais impactos no desenvolvimento psicológico de uma criança que trabalha precocemente.

Quais os impactos que o trabalho infantil pode causar em relação ao desenvolvimento psicológico da criança?

O principal impacto de todo trabalho infantil diz respeito à inversão na dinâmica familiar. Quando a criança é responsável pelo ingresso de uma parte significativa da renda familiar, a criança torna-se, de certa maneira, a chefe de família.

Os impactos psicológicos são muito variáveis dependendo do tipo e do contexto social do trabalho. Trabalhos como tráfico e exploração sexual, considerados piores formas de trabalho infantil, não são aceitos pela sociedade em geral e só trazem uma carga negativa muito grande no psicológico e na autoestima. Outro impacto generalizado é a dificuldade na inserção em outros grupos sociais da mesma idade, porque os assuntos e responsabilidades são muito além da idade adequada.

Existe trabalho menos danoso?

Não tem como qualificar se o trabalho é menos ou mais danoso em termos psicológicos. Eu diria que o nível de dano psicológico tem muito a ver com as normas sociais e culturais as quais a criança ou adolescente está inserido. Se a criança está trabalhando dentro do que é considerado “aceitável socialmente”, ou seja, atendendo balcão em lojas, em oficinas mecânicas ou inserida em ambientes que não a deixe vulnerável, como casos de trabalhos em semáforos e exploração sexual, a princípio não se tem um impacto tão grande. Quando a criança está inserida dentro de um contexto familiar, a tendência é que haja danos psicológicos menores. Mas isso não é uma regra.

O desenvolvimento de uma criança ou adolescente que trabalha pode ser comprometido também de acordo com a sua faixa etária?
Completamente. Especialmente em relação à capacidade de aprendizagem e às formas de se relacionar. O cérebro humano está em desenvolvimento até os 25 anos de idade, aproximadamente. Então, qualquer coisa que afete esse processo gera impacto para o resto da vida.

O que uma criança ou adolescente perde ao trabalhar precocemente?

Além do já exposto, as crianças e os adolescentes perdem a possibilidade de acompanhar as etapas naturais de desenvolvimento biológico. Além disso, também perdem etapas de seu crescimento social. Quando se trabalha com crianças oriundas do trabalho infantil é muito comum sentir a necessidade de se recriar etapas que se perderam.

Outra importância muito grande é a possibilidade de ter a fase do brincar. O direito à atividade é quase sempre perdido por   uma criança que trabalha, e brincar é necessário para a formação do ser humano.

O brincar tem o mesmo significado para uma criança em situação de trabalho?

O brincar tem um significado universal, é uma necessidadel para todas as crianças. O fato que toda criança encontra espaço para brincar, de certa maneira, indica o quão brincar é importante para a sua psique.

O que se discute hoje é a falta de espaço, temporal e físico, para crianças brincarem. O brincar tem um papel muito importante, social e cognitivo, no desenvolvimento, mas que não pode ter início, meio e fim mensurados.

Há algum benefício no trabalho precoce?

Por definição, não. A criança está fazendo algo para o qual não está preparada. Ao trabalhar, assim como em qualquer lugar, as crianças aprendem coisas boas e ruins, dependendo das circunstâncias. Mas não pode se afirmar que há benefícios devido ao impacto permanente no desenvolvimento.

O trabalho precoce afeta a forma de se relacionar?

A princípio, o trabalho infantil acaba distorcendo todas as relações que a criança mantem, tanto com seus pares quanto com adultos. Isso porque a criança cumpre um papel para o qual não foi preparada nem biologicamente e nem socialmente. Em termos de relações com outras crianças, o que afeta é a falta das mesmas referências, seja um programa de TV ou uma brincadeira coletiva.

Os referenciais de uma criança que está trabalhando são semelhantes aos dos adultos. Por isso é bastante comum que, nesse caso, a criança tenha mais facilidade de se relacionar com adultos do que com pessoas de sua faixa etária.

E em relação à educação?

No geral, a escola está muito mal preparada para oferecer uma educação adequada aos seus alunos, e isso se agrava com crianças oriundas do trabalho infantil. A criança nesta situação é geralmente muito mais contestadora. Ela possui mais parâmetros de mundo para debater com professores e questiona com mais frequência o ensino que está sendo oferecido, justamente por ter parâmetros de vivência e de mundo muito maior. Porém, isso acarreta efeitos colaterais na sua capacidade fisiológica de desenvolvimento cerebral. Além disso, é comum a defasagem escolar por problemas de relacionamento com outras crianças.

É possível identificar diferença no comportamento de uma criança que possui familiares oriundos do trabalho infantil?

A maior parte da incidência de trabalho infantil é intergeracional. Então, quando se fala de erradicação de trabalho infantil, apontamos para duas mudanças importantes: a quebra de ciclos familiares e de paradigmas culturais. Ainda assim, a identificação do trabalho infantil é mais fácil quando sua realização esbarra em um paradigma sociocultural.

Por exemplo, retirar as crianças de uma região de cultivo, no campo, é muito mais fácil porque você atinge, a partir de uma mudança politica e cultural, uma população de crianças trabalhadoras. No ambiente urbano, muitas vezes há dinâmicas familiares enraizadas com diversas formas de trabalho. A erradicação, de fato,  só ocorre quando há a quebra desse ciclo intergeracional familiar, ou seja, quando os responsáveis mudam os valores e entendem que as crianças não devem trabalhar e que os adolescentes terão idade certa para isso.

Quais as consequências futuras para uma criança ou adolescente que trabalha?

Tudo que acontece na vida de uma criança gera impacto permanente. Isso porque, durante a infância, se tem grande volume de desenvolvimento fisiológico e cerebral. De fato, o ser humano está sempre em desenvolvimento.

Os impactos, no entanto, variam de acordo com a criança, do trabalho que exerceu, da aceitação sociocultural, entre outros pontos. Todas as questões abordadas têm características ofensoras. O nosso conteúdo genético é modificado pela vivência e ambiente. Então, o que passamos para nossos filhos não é o mesmo que nossos pais nos passaram, e assim sucessivamente.

“Trabalho infantil afeta o desenvolvimento psicológico da criança para o resto da vida”, afirma sociólogo
“Trabalho infantil afeta o desenvolvimento psicológico da criança para o resto da vida”, afirma sociólogo